Renegociação da dívida, procura de outras fontes de financiamento. O secretário-geral do PCP, cabeça de lista em Lisboa da coligação CDU, apresenta as suas propostas para o país.
Jerónimo de Sousa está na estrada lutando pelas suas ideias e do PCP, claro. Não aceita que as soluções da troika sejam a única saída e aponta a convergência dos países em dificuldades como um caminho e o financiamento de Portugal junto do Brasil e dos EUA como uma alternativa.
Ganhando estas eleições, com um resultado que lhe permitisse formar governo, qual seria a primeira medida?
Especulando, mesmo com um resultado dessa natureza, o PCP não formaria governo sozinho. Contaria com democratas que estivessem empenhados na resolução dos problemas nacionais. Depois, aquilo que posso garantir, é que usaria a Constituição como ponto de partida para o exercício da acção política. No plano económico, no social, no cultural, no da soberania nacional, ainda continua a ser um elemento aglutinador incontornável para qualquer governo.
O país vive um momento de emergência. Qual seria a primeira medida tendo em conta a situação?
É um facto. Medidas imediatas articuladas com medidas de fundo. Partindo de uma análise dos nossos défices estruturais, da nossa dívida externa, do nosso défice agro-alimentar, dos transportes, energético, do estado do nosso aparelho produtivo, procuraríamos concretizar em tempo útil, este objectivo de renegociação da dívida. Evitando que num futuro que não será com certeza, infelizmente, muito longínquo. Portugal vai ficar encostado à parede, porque não pode pagar esses compromissos. A renegociação seria feita, obviamente com dificuldades, mas garantindo que não batêssemos no fundo. Que é o que nos vai acontecer quando reestruturarmos a dívida em condições miseráveis e dramáticas.
Renegociação como?
Através do Governo, sustentado na opinião da Assembleia. Com os centros de decisão que existem neste momento, com as instituições que conhece. Mas acompanhada com outra medida fundamental. Portugal não está sozinho nesta crise. Há países com uma dívida externa crescente, como a Grécia, a Irlanda, casos que já conhecemos. Mas aproximam-se tempestades em Espanha, Bélgica, Itália. Países que vão ser confrontado com esta situação. Convergência deste países, portanto, com voz, com poder negocial no quadro da UE. A diversificação das nossas fontes de financiamento seria outra medida.
E como é que o faria?
Procuraria que países abrissem portas. E não faço aqui discriminações! Podia ser junto dos Estados Unidos, ou Brasil, ou mesmo países emergentes que neste momento aí estão com um papel nesta matéria. Ou seja, aquilo que fosse melhor para o meu país. Isto acompanhado com uma medida de fundo. Obviamente que isto não se resolve num acto súbito: a alternativa mais segura para Portugal é a defesa da produção nacional em áreas estratégicas que têm que ver com os tais défices. Potenciando-se, em primeiro lugar, as capacidades nacionais por parte dos trabalhadores, quadro técnicos e intelectuais. De gente interessada em defender o interesse nacional. E procurando através do investimento público - contando também com o investimento privado - desenvolver essas potencialidades. E para quem diz que Portugal não tem essa possibilidade, respondo que, na verdade, olhando para as riquezas naturais, nos sectores que eu referi, são potenciadores de criação de riqueza.
A defesa do interesse nacional implicaria processos de nacionalização.
A nossa proposta não tem um caminho único de processos de nacionalização. De aquisição. De negociação. O que se pretende é que o Estado fique municiado de alavancas fundamentais para essa perspectiva.
Quais seriam essas alavancas.
Sectores estratégicos como a energia, as comunicações, os combustíveis, a banca comercial. Sublinho, a banca comercial. É que neste momento nós não temos um programa de nacionalizações, o que temos é um programa de privatizações.


