Jardim quer que PSD contorne lei das quotas nas europeias

20.04.2009 - 08:27 Por Tolentino de Nóbrega, São José Almeida
Alberto João Jardim quererá que Teresa Morais e Regina Bastos, as duas candidatas incluídas na lista do PSD ao Parlamento Europeu (PE) em lugar elegível no quadro da lei da paridade, venham a renunciar aos seus mandatos. A revelação foi feita no Funchal pelo líder dos sociais-democratas madeirenses e pelo deputado do PSD Guilherme Silva, que admitiu ter havido negociações nesse sentido com a direcção nacional do partido.
A renúncia das duas candidatas terá sido a condição imposta por Jardim para aceitar que o candidato por si proposto ficasse com o 8.º lugar nas listas, não elegível e visto como uma despromoção face ao 6.º posto ocupado nas últimas eleições europeias pelo ainda eurodeputado Sérgio Marques. Com a saída de Teresa Morais e Regina Bastos, 3.ª e 6.ª nas listas, o nome proposto pelo PSD-Madeira subiria duas posições e ficaria em posição de ser reeleito. Nunca um candidato proposto por Jardim deixou de ser eleito nas europeias.
"Há duas candidatas que não vão assumir funções no Parlamento [Europeu], pelo que o dr. Sérgio Marques será 6.º e, como tal, a sua eleição não estaria em causa", justificou Guilherme Silva, representante de Jardim no Conselho Nacional do PSD, que se reúne amanhã para aprovar a lista de candidatos do partido ao PE.
O PÚBLICO não conseguiu ontem confirmar junto da direcção nacional do PSD os termos em que as negociações decorreram. Já Teresa Morais, actual coordenadora da Unidade de Projecto de Provedoria de Justiça e ex-deputada no Governo de Durão Barroso, limitou-se a declarar: "Não confirmo ter aceite um compromisso desses, assim como não confirmo sequer a existência de um convite do partido para integrar a lista." Também não foi possível obter uma reacção de Regina Bastos a este assunto.
Guilherme Silva diz que a descida do 6.º para 8.º lugar do candidato madeirense não é uma despromoção e deve-se sim à "capacidade e prática reivindicativa" de Jardim, que, face ao condicionamento imposto pela lei da paridade - que obriga a que em cada três candidatos figure uma mulher -, negociou com Manuela Ferreira Leite "contrapartidas num contexto mais amplo que salvaguarda os interesses" da região.
Só que desta negociação Jardim não deu prévio conhecimento a Sérgio Marques e este, ao saber da despromoção, decidiu rejeitar o lugar por considerá-lo inadequado à única estrutura partidária "laranja" que é poder em Portugal. Face à recusa, Jardim resolveu o assunto em poucos minutos. Sem consultar ninguém, à entrada da comissão política regional realizada na sexta-feira no Funchal, convidou Nuno Teixeira, que logo aceitou ser candidato.
"O único importante no partido sou eu", reagiu Jardim, que, acusando Marques de ter evidenciado "certa distância", revelou que, "por lealdade" ao ainda eurodeputado, recusou "trocá-lo por uma candidata feminina madeirense, em 3.º ou 6.º, conforme proposto por Lisboa".
Idêntica proposta foi apresentada ao PSD-Açores mas a sua líder regional rejeitou-a peremptoriamente. "O processo ainda está a decorrer e as listas ainda não estão fechadas", disse Berta Cabral, escusando-se a comentar a descida do candidato Duarte Freitas - que também não aceitou o lugar - de 7.º para um inelegível 10.º lugar. Hoje, na reunião da comissão política regional, o PSD açoriano deverá assumir uma reacção mais enérgica à proposta da direcção nacional do partido.
Também o eurodeputado Silva Peneda recusou tecer considerações sobre a sua provável exclusão das listas. "Não tenho conhecimento de nada, nem fui contactado pela direcção do partido sobre tal matéria", disse o ex-ministro de Cavaco Silva ao PÚBLICO.
Eleitos em 2004 numa lista de coligação com o CDS/PP, dos actuais seis eurodeputados sociais-democratas só deverá continuar Carlos Coelho, que sobe de 8.º para 2.º na lista encabeçada pelo actual líder do grupo parlamentar, Paulo Rangel.

