Intervenção e Cidadania não defenderá despenalização do aborto

08.02.2006 - 11:43 Por Adelino Gomes, Maria José Oliveira (PÚBLICO)
O Movimento Intervenção e Cidadania, originado pela candidatura presidencial de Manuel Alegre, não assumirá uma posição sobre a interrupção voluntária da gravidez.
Ao invés do que foi inicialmente noticiado, a questão do aborto não será debatida no interior do movimento cívico, justificando-se esta decisão com o facto de o colectivo integrar pessoas oriundas de diferentes áreas ideológicas. "O movimento pretende ser transversal e o aborto não é uma questão de consenso", disse ao PÚBLICO Inês Pedrosa, uma das dinamizadoras do Intervenção e Cidadania.
A escritora e ex-porta-voz de Alegre afirma que a despenalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG) "não pode ser confundida com o movimento", pelo que será dada liberdade a cada membro para participar em acções pró ou contra a IVG.
Inês Pedrosa, que tem vários projectos literários em curso e está a preparar uma nova estadia na Universidade de Berkeley, nos EUA, em Abril, dedicar-se-á somente a uma das áreas prioritárias do movimento: os maus tratos infligidos a crianças. Para o tratamento deste tema, que agregará igualmente os maus tratos a idosos, o movimento contará com a colaboração de Ana Vicente, investigadora na área das mulheres.
Para meados de Março, está agendada uma reunião do movimento, coordenado provisoriamente por Ana Sara Brito, estando previsto que a ocasião sirva para estabelecer um quadro de causas que serão debatidas em diversas regiões do país. Segundo a dirigente nacional do PS, o núcleo de Évora está já a debater os efeitos da desertificação do interior.
Entre os restantes temas na calha encontram-se a língua portuguesa e o ensino da Constituição nas escolas. Esta última proposta estava já incluída no "contrato presidencial" de Alegre.
O ex-candidato participará em algumas acções do movimento, adianta Ana Sara Brito, mas não será o porta-voz do Intervenção e Cidadania. Contactado pelo PÚBLICO, o deputado assegura que não pretende ocupar qualquer cargo executivo no movimento, reclamando, contudo, um papel referencial. "Serei uma referência do movimento, o seu elemento congregador", disse.
"A ideia é ter Manuel Alegre como referência de base porque ele está mais vocacionado para a actividade parlamentar", explica Inês Pedrosa.
A escritora deixou de ser porta-voz de Alegre na passada semana quando, após vários dias de indecisão, o ex-candidato decidiu regressar ao Parlamento sem a avisar previamente.
Afirmando sentir-se "magoada", Pedrosa disse ao PÚBLICO não querer "agudizar" o caso. Contudo, admitiu estar "arrependida" de ter continuado a ser a porta-voz de Alegre após as eleições: "Estou muito arrependida de não ter deixado de ser porta-voz de Manuel Alegre logo a seguir às eleições presidenciais", afirmou, assumindo que foi "voluntarista em excesso".

