"Governo não se ocupa de casos fabricados com base em calhandrices" 
01.02.2010 - 21:22 Por Lusa, PÚBLICO
A reacção do Governo às acusações do jornalista Mário Crespo, que garante ter sido o alvo de uma conversa entre José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e "um executivo da televisão", foi feita através de uma fonte não identificada citada pela agência Lusa.
Segundo a agência noticiosa, uma fonte do Ministério dos Assuntos Parlamentares disse que "o Governo não se ocupa de casos fabricados com base em calhandrices".
Contactado pelo PÚBLICO, um assessor de José Sócrates adiantou apenas que "é provável que o primeiro-ministro não tenha ainda tido conhecimento" da denúncia de Mário Crespo "porque tem estado ao longo do dia em acções públicas", no âmbito dos cem dias de Governo.
Mário Crespo, jornalista da SIC, denunciou uma alegada conversa que terá decorrido num restaurante em Lisboa entre José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e um executivo de televisão que não identifica, em que ele, Mário Crespo, é alvo de várias críticas e referenciado como "mais um problema que tem que ser solucionado". O "pivot" da estação de Carnaxide deixa de escrever opinião no "Jornal de Notícias" depois de, ontem à noite, lhe ter sido negada a publicação de um texto onde relatava o sucedido.
A alegada conversa entre o primeiro-ministro, o ministro de Estado, o ministro dos Assuntos Parlamentares e o executivo de televisão terá decorrido no dia da discussão do Orçamento do Estado, na passada terça-feira, em que Crespo diz ter sido "publicamente referenciado como sendo mentalmente débil ("um louco") a necessitar de ("ir para o manicómio")". "Fui descrito como 'um profissional impreparado'", escreve o jornalista da SIC no artigo que foi publicado no site do Instituto Francisco Sá Carneiro, uma instituição de debate e reflexão política ligada ao PSD.
"Em 2010 o primeiro-ministro já não tem tantos 'problemas' nos media como tinha em 2009. O 'problema' Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi 'solucionado'. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser 'um problema'. Foi-se o 'problema' que era o director do PÚBLICO", acrescenta Mário Crespo.
Ouvido pelo PÚBLICO, Mário Crespo afirma ter sido contactado pelo director do “Jornal de Notícias”, José Leite Pereira, por volta da meia-noite. Nessa conversa, o director do diário informou o “pivot” da SIC que não iria publicar o seu habitual texto de opinião e que “iria investigar” as alegações nele relatados. O jornalista da SIC contrapôs afirmando que se aquela crónica não fosse publicada deixaria de escrever para o “Jornal de Notícias”. Hoje, Mário Crespo confirmou o abandono da colaboração semanal que mantinha com o JN.
Sindicato dos Jornalistas: conversa sobre Mário Crespo é "profundamente condenável"
O Sindicato dos Jornalistas considera que, "a ser comprovado o seu teor", a alegada conversa entre José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e um executivo da televisão sobre o jornalista Mário Crespo "é profundamente condenável, não apenas pelas expressões desprimorosas para a pessoa e para o profissional, mas também por alimentar a suspeita de que o Governo persegue os jornalistas, os serviços noticiosos e os órgãos de informação que não são do seu agrado".
Numa nota publicada esta tarde no site do sindicato, a direcção afirma que "não se pode aceitar o recurso a expressões susceptíveis de atentarem contra a honra e a dignidade dos visados ou que constituam uma ameaça – mesmo velada – ao seu futuro profissional" e pede "uma retractação pública das pessoas que as tenham proferido".
JN afirma que o artigo de Mário Crespo "não era um simples texto de opinião"
A direcção do "Jornal de Notícias" informou esta tarde, através de uma nota publicada no site do jornal, que o jornalista da SIC Mário Crespo cessa, a seu pedido, a sua colaboração com o diário. "O jornalista Mário Crespo foi até ontem colaborador de opinião do 'Jornal de Notícias'. Essa colaboração cessou por sua vontade", adianta a nota da direcção.
Do ponto de vista da direcção do "Jornal de Notícias", "o texto era construído a partir de informações que lhe tinham sido fornecidas por alguém que escutara uma conversa num restaurante", de Lisboa. Da conversa entre o director e o colaborador resultou, segundo a informação disponibilizada no site do jornal, que Mário Crespo decidiu retirar o texto de publicação, informando que "cessava de imediato a sua colaboração com o jornal, o que a direcção do JN respeita".

