É com “muita pena” que a ainda ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, vê a transformação do Ministério em secretaria de Estado. Num dos seus últimos actos oficiais, Canavilhas teceu elogios a Francisco José Viegas, novo responsável pela pasta, e lamentou que não lhe tivessem dado um ministério para governar.
“O peso político do Ministério da Cultura tem muita importância para além de um valor simbólico. Sob todos os pontos de vista, nomeadamente no da representação de Estado. Nesse sentido fico com muita pena [que passe a secretaria de Estado]. Mas melhores dias virão e a cultura certamente voltará a estar num plano em que lhe seja reconhecida a importância que ela merece”, disse hoje a ainda ministra da Cultura, aos jornalistas no final da cerimónia de deposição das cinzas de José Saramago em frente à Casa dos Bicos, em Lisboa.
“Considero bastante grave. Não me venham com o argumento de que uma secretaria faz exactamente a mesma coisa que faz um ministério porque não é verdade. Há uma importância estratégica, logística, de representação de Estado para além do simbólico que faz toda a diferença. Não só no plano nacional como também no plano internacional. Qual o peso que têm nas reuniões internacionais os secretários de Estado e o peso que têm os ministros? Há de facto uma diferença muito importante”, lamentou.
No entanto, Canavilhas não acredita que do ponto de vista dos diplomas que estavam a ser desenvolvidos pelo Ministério da Cultura venha a haver uma interrupção. “Tenho por Francisco José Viegas a maior consideração. Por isso estou certa de que irá seguir uma linha lógica em defesa da Cultura. Porque quer à esquerda, quer à direita todos queremos o mesmo: queremos o melhor para a Cultura do nosso país.”
Depois do seu último acto oficial - que será amanhã, às 18h30, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, onde se vai realizar o espectáculo “As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz”, com música de Haydn e textos de Saramago - a ministra da Cultura vai sentar-se na bancada socialista no Parlamento.
Quanto ao próximo secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, que a Gabriela Canavilhas considera
“uma pessoa de grande qualidade” e é seu amigo pessoal, “poderia dar um excelente ministro da Cultura”. “Infelizmente não lhe foi reconhecido esse mérito”, afirmou.
Pilar del Río diz que extinção é “um equívoco”
A presidente da Fundação José Saramago lamentou hoje também a extinção do Ministério da Cultura. ”Portugal devia ter um ministério da Cultura muito forte, tão forte como o da Economia. O desenvolvimento da Cultura seria uma fonte de riqueza inestimável”, afirmou. Depois da cerimónia de deposição das cinzas do Nobel da Literatura, Pilar referiu-se também ao fim da pasta da Cultura classificando a decisão como “um equívoco”.
Quanto ao novo secretário de Estado, Pilar del Río, sublinhou que foi ele que apresentou o livro “Ensaio sobre a Cegueira” e considerou-o “um amigo”. “Somos amigos há muitos anos porque partilhamos o mesmo mundo. Ele foi jornalista e vamo-nos encontrando há mais de 20 anos pelas ruas de Lisboa”.
Pilar del Río confia que Francisco José Viegas vai ser “activo” – “é uma pessoa dinâmica” – e acredita que vai “lutar”, o que Pilar não sabe é que meios a secretaria vai ter. “Se Francisco José Viegas tivesse grandes meios económicos se calhar poderia fazer grandes coisas”, conclui.
Notícia corrigida às 22h19


