Francisco Lopes, o funcionário idealista que quer ser Presidente

31.12.2010 - 16:30 Por Nuno Sá Lourenço, Rita Brandão Guerra
De Vinhó a Lisboa. Da janela de casa à janela do eléctrico. Da pobreza à opulência. Francisco Lopes quis desde sempre que linhas paralelas se cruzassem. O homem que é agora candidato à Presidência da República respirava a causa antes de respirar o partido.
Andavam ali a cortar pinheiros adultos e ele, pequenito, sentado numa cadeira à janela - a minha mãe contava isto muitas vezes -, a preocupação dele era a preocupação com a natureza e que os homens eram maus. Ele mal falava ainda, era um gajo especial." Fausto Lopes sorri enquanto vai buscar às memórias da família os primeiros sinais das inquietações que iriam pautar a acção do irmão mais velho ao longo da vida, Francisco, agora candidato à Presidência da República.
Da aldeia de Vinhó, em Arganil, até à Rua de Soeiro Pereira Gomes, sede do Partido Comunista Português (PCP), em Lisboa, foi um percurso em velocidade acelerada. Aos seus olhos, os rasgos diários da injustiça social vão-lhe parecendo cada vez mais chocantes. Francisco Lopes, de 55 anos, recorda os vestígios desse Portugal arcaico e amordaçado: "As questões do ensino, os problemas do fascismo, a guerra colonial, a falta de liberdade e a repressão. É um conjunto de problemas de que se toma conhecimento. Identifico-me com a necessidade de intervir."
Em 1973, com 18 anos, já não tinha dúvidas. Foi com essa idade que deu os passos que resolveram a sua vida. No Instituto Industrial de Lisboa, passa à prática aquilo que, nas palavras de Apolónia Teixeira, deputada comunista à Assembleia Constituinte e mais tarde à Assembleia da República, estava desde sempre "ali a fermentar".
Ao longo de nove anos longe dos pais, que o tinham enviado para Lisboa para estudar, vai tomando "primeiro uma consciência social e depois política". Retratos de uma Lisboa dividida que o impelem a agir: "Uma coisa que me marca é ver as diferenças sociais, que eram gritantes quando vinha de eléctrico. Vinham muitos trabalhadores e operários para as fábricas na Rocha do Conde de Óbidos e viam-se as diferenças entre a opulência, de um lado, e as condições que esses trabalhadores tinham, do outro", recorda ao P2 Francisco Lopes.
Incomodava-o em Lisboa aquilo a que já assistia em Vinhó, tantos anos antes. "Era frequente ver crianças na escola descalças, sem ter praticamente o que vestir", lembra. Se a família Lopes não era abastada, também não estaria entre as que viviam com maiores dificuldades. Mas, para Francisco, a diferença estava lá, como explica o irmão: "Ele, desde miúdo, teve sempre essas tendências. Era mais do coleccionismo, enquanto eu era mais da fisga." Os pais eram gente humilde. Mas cujasopções haveriam de ajudar a fazer do homem o comunista que é hoje. Era deles a loja da aldeia, "que, além de ser um estabelecimento, era um ponto social." Aí, o pai "lia à populaça" o jornal O Século, que chegava pelo correio, a quem queria saber das notícias do dia anterior.
Um idealista na família
Quando chega ao Instituto Industrial, está pronto para aderir, divulgar, colar. Para a família, já se tinha tornado óbvio. "Ele não falava de outra coisa, como deve calcular", recorda, divertido, o irmão do meio. Que vai buscar outro episódio marcante, tanto para a vida de Francisco Lopes, como para a vida do país: o Congresso da Oposição Democrática, em 1973, em Aveiro, que a GNR tentou impedir, mas que Francisco Lopes conseguiu fintar.

