Ferreira Leite: "Darei aumentos à função pública se tiver dinheiro para os pagar"

16.05.2009 - 17:04 Por José Manuel Fernandes, e Raquel Abecasis (Renascença)
Desligou o telemóvel e tirou as pulseiras ("já sei que depois fazem muito barulho no tampo da mesa"). De partida para a Grécia, onde participa na reunião do Grupo de Bilderberg, ainda não estavam os microfones ligados e já respondia ao primeiro desafio: o facto de ir a esse encontro ser um sinal de que vai ser primeira-ministra, pois todos os últimos primeiros-ministros foram a um desses encontros anuais antes de ganharem as eleições: "Não sou supersticiosa e não será por isso que vou ser primeira-ministra, vou ser porque vou ganhar as eleições." Depois, 45 minutos de entrevista de que aqui sintetizamos o essencial.
Concorda com José Sócrates na recusa do Bloco Central?
Não conheço a opinião de José Sócrates, mas a minha é clara: sou contra a existência do Bloco Central e independentemente dos protagonistas. O Bloco Central, PS mais PSD, representaria mais de três quartos dos eleitores, ou mesmo 80 por cento, o que quase aniquilaria um sistema democrático com partidos da oposição fortes. O país seria governado por uma aliança fora da qual não existiria uma alternativa e isso não é bom.
Não acha que a experiência do Bloco Central 1983/85 foi boa?
Era um momento muito especial, a experiência não foi assim tão boa.
Foi um Governo que pôde tomar medidas duras para vencer a crise económica e hoje estamos numa situação em que alguns indicadores económicos são tão maus ou mesmo piores...
É verdade, e por isso é essencial que as oposições colaborem na solução dos problemas. Mas para que isso aconteça é tão importante a posição das oposições como a do Governo. Não podemos ter um Governo que pensa que só ele é que tem as soluções certas e nunca ouve as oposições, tal como estas não devem dizer que tudo o que o Governo faz está errado.
Em democracia só tivemos um governo de minoria que durou toda a legislatura, o primeiro de Guterres, e isso porque o PSD, em nome da moeda única, viabilizou os orçamentos do Estado. O actual clima de confronto entre PS e PSD não tornaria impossível essa colaboração?
O que é inaceitável é um Governo, mesmo com maioria, recusar sempre as contribuições dos outros partidos. É por isso que esta maioria absoluta tem sido prejudicial para o país, pois não tem sabido ouvir nem fazer ajustamentos que porventura, se governasse em minoria relativa, teria de fazer.
Isso não é um problema das maiorias absolutas? O Governo de Cavaco Silva também era acusado de não ouvir as oposições.
O momento era diferente, não se atravessava uma crise como esta, e a verdade é que o país desenvolveu-se. Avaliando a política pelos resultados, os resultados foram bons. Hoje são maus. Isto significa que a política está errada e é péssimo para o país que o Governo a siga de forma obstinada. Uma maioria absoluta não é um bem em si mesmo, depende das políticas que são seguidas.
O seu objectivo é ganhar as eleições com maioria absoluta?
O meu objectivo é ganhar as eleições e penso que as posso ganhar. Mas maioria absoluta para quê? Estabilidade? Já houve um governo de maioria absoluta em que o Presidente dissolveu a Assembleia. Governabilidade? Isso só é bom se o Governo estiver a governar bem; se estiver a governar mal, é pior ainda. Houve governos de minoria que foram bons para o país e governos de maioria, como este, que foram maus.
As políticas do Governo são todas erradas?
Já disse que este Governo teve boas políticas em áreas como a segurança social. Mas o que sucede é que, mesmo antes de a crise internacional estalar, quem olhasse para os indicadores económicos percebia que o país ia na má direcção: menos crescimento do que a Europa, mais inflação, mais desemprego, mais dívida externa.
A crise internacional justifica as dificuldades actuais?
Não, e não sou só eu que o digo. A generalidade dos economistas diz o mesmo. A crise já cá estava, mas ainda antes de a crise internacional estalar eu própria disse várias vezes que as políticas que estavam a ser seguidas acabariam por redundar numa situação como a actual. A crise global agravou tudo, mas digo hoje, aqui, que essa crise vai passar nos outros países e que nós vamos demorar mais tempo a sair dela. Depois verão se tenho ou não razão.

