Entrevista

Fernando Rosas abandona Parlamento para se dedicar ao ensino e investigação

09.10.2010 - 22:30 Por Maria José Oliveira

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A cultura média dos parlamentares é fraca no que diz respeito à História A cultura média dos parlamentares é fraca no que diz respeito à História (Foto: Pedro Cunha)
Deputado do Bloco de Esquerda durante oito anos, Fernando Rosas entendeu que chegou o momento de renunciar ao seu mandato parlamentar, sucedendo-lhe, a partir de 1 de Novembro, Jorge Costa, terceiro candidato por Setúbal.

Vai regressar plenamente à vida académica (que chegou a acumular com as funções no Parlamento) e à investigação, mas não abandonará a política. “Continuarei a fazer política até morrer”, afirma o historiador, que sai da Assembleia da República (AR) sem sentimentos nostálgicos, embora admita que terá saudades do ambiente “fraternal e solidário” da sua bancada.

Foi eleito há pouco mais de um ano. Por que é que decidiu sair agora da AR?
Há razões de ordem pessoal e profissional. Se esta legislatura fosse levada até ao fim, eu ficaria aqui até 2013…

Acredita então que a legislatura não vai ser cumprida.
Acho que não. Como me jubilo da universidade este ano, ficaria sem tempo para o ensino. E eu sempre estive na política como um historiador que também faz política e não como um político que de vez em quando faz História. Devemos saber quando saímos. Esta é a minha altura. Nunca deixei de dar aulas nem de escrever. Mas uma coisa é ler bibliografia, dirigir teses e dar aulas; outra é fazer investigação. E eu quero fazer investigação. A acumulação do meu trabalho na AR e a docência era um esforço físico enorme.

Não está a defraudar os seus eleitores?
Creio que não. Sempre defendi a circulação de deputados. Mas agora isso está dificultado, com a lei aprovada em 2009 e que estipula que as rescisões só aconteçam em circunstâncias extremas. Isso tem um lado perverso, que é transformar isto numa espécie de clube de bonzos: políticos profissionalizados na vida parlamentar. Dar aos partidos a possibilidade de renovar o quadro parlamentar é da maior importância.

Qual é o balanço que faz dos seus anos enquanto deputado?
Foi uma grande honra representar o distrito de Setúbal. Aprendi muito com o intenso contacto com as populações. Foi uma escola extraordinária de aprendizagem sobre o que são as realidades do país e os processos de fazer política, ou seja, tentar resolver os problemas concretos das pessoas. O Parlamento ensina-nos a legislar, a tentar resolver os problemas através das leis e de iniciativas. Ensina-nos essa técnica de representar aquilo que entendemos serem os interesses legítimos das pessoas. Isso é extraordinariamente importante. Se não se aprende a fazer isso, é só retórica.

O Parlamento é uma escola fundamental. Mas em contraponto pode ser um clube endogâmico e centrípeto, que puxa mais para dentro do que para fora. Todos os Parlamentos são um pouco assim: uma forma de desligar os representantes dos representados e de os aproximar do Estado. No fundo, uma forma de criar um consenso artificial quando, por vezes, os verdadeiros consensos só se atingem pelo dissenso. E os partidos que são portadores de projectos alternativos, como o BE, têm de manter viva essa capacidade de dissensão, de crítica.

Vai dedicar-se ao ensino e à investigação. Mas deixa a vida política?
Nasci com ela e vou fazê-la até ao fim. Faço parte da Mesa Nacional e continuarei a fazer intervenção política. Não partilho a leitura que coloca os académicos numa espécie de torre de marfim. Acho isso uma hipocrisia. Mas sublinho que como historiador não faço política; e como político a História é-me indiscutivelmente de grande utilidade. Os políticos ganhariam muito em conhecer a História.

É algo que falta à classe política?
A cultura média dos parlamentares é fraca no que diz respeito à História. Existe o conhecimento da banalidade e o do lugar-comum, pouco aprofundado. Mas há situações muito diferentes e temos um presidente do Parlamento que é um grande conhecedor da História portuguesa.

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