Fernando Nobre inquieta PS e coloca pressão sobre Alegre

19.02.2010 - 08:31 Por Margarida Gomes, Filomena Fontes
É mais uma frente aberta a pôr à prova a coesão do PS e as escolhas de José Sócrates. O anúncio da candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República, que hoje será formalizada em Lisboa no Padrão dos Descobrimentos, deixou os socialistas nervosos e Manuel Alegre sob pressão. À mesma hora em que o presidente da AMI (Assistência Médica Internacional) fará "a sua declaração ao povo português", Manuel Alegre estará em Coimbra num jantar com apoiantes, organizado pelo MIC (Movimento de Intervenção e Cidadania).
Ontem, contactado pelo PÚBLICO, Alegre não quis fazer qualquer comentário. Mas João Correia, o presidente da comissão coordenadora do MIC (o órgão nacional executivo do movimento), condenou a candidatura do presidente da AMI ao fracasso, vaticinando mesmo que pode ser "uma solução desagregadora" que pode favorecer o campo da direita. "É pena que um homem com este património único se esvaia nesta aventura, sem vocação para qualquer sucesso na política. Tenho pena, porque é um homem que merecia melhor sorte", declarou, confessando que tem admiração pela personalidade do presidente da AMI.
A tese de que teria sido a ala soarista a empurrar Nobre para a corrida a Belém fazia caminho entre os apoiantes de Manuel Alegre, sugerindo-se ajustes de contas que ficaram por saldar desde as últimas presidenciais. "Não tenho nada a ver com o Partido Socialista", afirmou Fernando Nobre ao ser questionado sobre se a sua candidatura poderia dividir os socialistas. Garante que avança por dever de cidadania e que o contrato que quer fazer "é com o povo português". Hoje, no Padrão dos Decobrimentos, em Belém, prescindirá de "notáveis", mas terá à sua volta figuras mediáticas. Margarida Pinto Correia, que foi mandatária para a juventude de Jorge Sampaio, vai ser a coordenadora da campanha. Na plateia, a apoiá-lo, espera-se a presença, entre outras figuras da cultura, de Rui Veloso e Luís Represas. A partir de hoje, será activado um site e a candidatura entrará nas redes sociais da Internet, plataformas que terão um papel fundamental na campanha.
Com Cavaco Silva a gerir o seu timing ao milímetro, à esquerda a entrada de Nobre coloca José Sócrates perante a inevitabilidade de apoiar Manuel Alegre e pode forçá-lo mesmo a antecipar uma clarificação que pretenderia adiar o mais possível.
O risco da segunda volta
Anteontem, o líder parlamentar do PS, Francisco Assis, tentava suster precipitações, advertindo que o partido só tomará uma posição sobre as presidenciais depois da votação do Orçamento do Estado, marcada para dia 10 de Março.
No PS, a perplexidade está instalada. António Arnaut, um dos históricos do PS que foi escolhido para apresentar Manuel Alegre no jantar de hoje em Coimbra, admite o risco. "Não há uma sobreposição de candidaturas, mas há uma base de apoio que vai levar a uma discussão de votos significativa, o que obrigará Manuel Alegre a ir a uma segunda volta", antevê. Salvaguardando a incógnita Cavaco Silva, o fundador do PS diz não ter qualquer dado que o leve a concluir que a candidatura de Nobre terá sido inspirada por Mário Soares. "Mas, se o tivesse sido, isso não teria mal nenhum", acrescenta, vincando que se trata de uma personalidade cuja independência face aos partidos é inquestionável. Esperando que o PS apoie Manuel Alegre,"porque é quem reúne as melhores condições para unir o centro-esquerda e a esquerda", o deputado Jorge Strecht afasta a ideia de que Alegre esteja acossado. "Fernando Nobre não tem currículo político nenhum e a um candidato a um órgão de soberania como a Presidência da República exige-se esse percurso", alega.
Dissonante, Vítor Ramalho, próximo de Soares, entende que se trata de "uma candidatura necessária porque possibilita um novo debate de ideias e encoraja os partidos a olharem para a sociedade civil". Abstendo-se de tomar posição, reserva o seu apoio para depois de o partido tomar um decisão oficial.

