Estado da Nação debatido hoje com olhos postos nas próximas eleições

02.07.2009 - 07:32 Por Nuno Simas
José Sócrates enfrenta hoje, no Parlamento, o último debate do estado da Nação num dos piores momentos políticos desde que é primeiro-ministro.
O líder do PS chega ao fim da legislatura em queda, com uma pesada derrota eleitoral nas europeias, e com um Governo desgastado por algumas medidas "ásperas", como já confessou.
Será o último frente-a-frente entre Sócrates e a oposição antes das férias de Verão que bem poderá servir de ensaio geral de discursos para a pré-campanha das legislativas de 27 de Setembro. Tanto para PS como para a oposição, do PSD ao Bloco de Esquerda.
E em que dificilmente Sócrates deixará de ser confrontado com os números da economia, do desemprego ou ainda com o negócio da PT para compra da Media Capital, ou a Fundação para as Comunicações Móveis, que o PSD rotulou de "saco azul" do Governo.
Há um ano, a 10 de Julho de 2008, no debate do estado da Nação, o momento político ainda era outro. O estado de graça dos primeiros anos de governação do PS dava sinais de desgaste e o choque petrolífero que fez aumentar os combustíveis já levava todos (ou quase) a introduzir a palavra crise no discurso, ajudando a oposição a pintar de negro o retrato de Portugal. Sócrates anunciou medidas de combate a essa crise que viria a piorar no Outono, após a falência da Lehman Brothers e o "início" da crise financeira à escala mundial.
Há um ano, a crise ainda era outra - a do terceiro "choque petrolífero" -, o PS estava à frente nas sondagens e o primeiro-ministro ainda tentava pôr algum optimismo no discurso. O "choque petrolífero" obrigou o Governo a medidas excepcionais, como o aumento das medidas de apoio aos alunos, na Acção Social Escolar (ASE), com mais manuais escolares gratuitos e a criação do passe escolar, um imposto de 25 por cento para taxar especulações com os aumentos dos combustíveis que teve receitas mais reduzidas (30 milhões de euros) do que os 100 milhões previstos ou ainda a descida do IMI.
Há um ano, José Sócrates antecipava um balanço de legislatura nas reformas da justiça, da administração pública, a avaliação dos professores ou no Código do Trabalho. No primeiro caso, o Pacto da Justiça avançou, por exemplo, com o mapa judiciário, mas não escapou à polémica. A produção legislativa da reforma da administração está feita, mas falta a regulamentação de muitas das leis. Contra a avaliação saíram à rua milhares de docentes e o Governo optou por um regime simplificado que, mesmo assim, não calou a classe.
Há um ano, o controlo do défice público era uma pedra angular do discurso "de confiança" do Governo, até para atingir a oposição, em especial o PSD. "É preciso dizer não às propostas demagógicas de baixa generalizada de impostos ou o aumento substancial da despesa pública", dizia o primeiro-ministro. Hoje, em nome da crise, é preciso aumentar o défice para assumir o investimento público e as obras públicas.
As obras, como sempre
Há um ano, como hoje, a discussão esteve centrada nas grandes obras públicas, como o TGV - um projecto que Sócrates defendia em 2008 e que, passado um ano, aceitou adiar para depois das legislativas. Perante o clamor de partidos e as dúvidas do próprio Presidente da República.
A crise mundial entrou em força na vida política. As notícias do encerramento de fábricas e do aumento do desemprego ajudaram a mudar o clima. Juntando mais crise à que já existia antes, clamam os partidos da oposição, da esquerda à direita.
Passado um ano sobre o último debate do estado da Nação, algumas coisas mudaram. O partido de Sócrates, que conseguiu pela primeira vez uma maioria absoluta para o PS em 2005, foi derrotado nas europeias de 7 de Junho. À esquerda, PCP e Bloco cresceram. À direita, o CDS também. E o PSD, que tem em Manuela Ferreira Leite a terceira líder desde 2005, venceu.
A derrota europeia levou a uma aparente mudança de estilo de Sócrates, a aceitar com humildade os resultados nas urnas e com o PS a ser menos entusiasta no pedido de maioria absoluta nas eleições.

