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Gesto inédito

Elogio de Paulo Rangel a outros deputados surpreendeu a Assembleia da República

03.07.2009 - 23:09 Por Kathleen Gomes

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O líder parlamentar do PSD foi eleito para o Parlamento Europeu O líder parlamentar do PSD foi eleito para o Parlamento Europeu (Nuno Ferreira Santos (arquivo))
Foi um gesto inédito o que se viu ontem na Assembleia da República – não estamos a falar do que o que Manuel Pinho fez com as mãos, mas do elogio personalizado que o líder da bancada do PSD, Paulo Rangel, de partida para o Parlamento Europeu, dirigiu a deputados de todos os grupos parlamentares. Rangel assinalou, entre outros, “a cultura lúcida do Fernando Rosas” (BE), “a inteligência ímpar do António Filipe” (CDU), “a dignidade – que faz dele o melhor de todos nós – do Marques Júnior” (PS), assim mesmo: tratando-os por tu e sem poupar nos adjectivos. Por sinal, até teve mais pudor em falar da sua própria bancada. “Fui mais comedido. Como sou líder parlamentar, ficaria mal fazer essas distinções”, explicou ao PÚBLICO.

O gesto surpreendeu os seus colegas de bancada. “Não me lembro de alguma vez ter sido feito”, diz Rosário Carneiro, do PS. “É bastante inédito”, nota Teresa Caeiro, do CDS. “É pelo menos raro”, admite Nuno Magalhães, também do CDS. Todos os deputados a quem pedimos ontem uma reacção foram referidos no discurso de Rangel. Fernando Rosas diz que foi um acto de “generosidade intelectual”, que “implica alguma coragem política, na medida em que não é vulgar na nossa vida política”. Para Maria de Belém, é uma “boa prática, que devia ser norma nas relações parlamentares”. Mas não é – pelo menos, com uma visibilidade pública. A actividade parlamentar, explica Teresa Caeiro, está muito marcada por uma lógica territorial. “Um exemplo: quando o Presidente da República vem à Assembleia, muitas vezes os partidos que não o apoiaram não batem palmas. Nos EUA, o Presidente vai ao Congresso e é aplaudido de pé por todos. Criou-se a ideia de que as convicções parlamentares e partidárias ficam menorizadas quando se reconhece o mérito de outros que não têm as mesmas ideias que nós.”

O comunista António Filipe refere que o gesto de Rangel reflecte o “relacionamento pessoal muito correcto e cordato entre os deputados, independentemente das divergências frontais que têm”. Mas a imagem pública não é essa – no imaginário colectivo, o debate parlamentar assenta na tensão e no conflito. “É natural que a imagem pública não seja essa”, diz António Filipe. “Porque o que é visível do debate político é a polémica. Quanto mais acalorado for, mais notícia é.”

Mas as relações entre os deputados também passam por outros níveis, com menos visibilidade pública: o trabalho nas comissões, que tem uma lógica de maior colaboração, nota Paulo Rangel (“É um trabalho construtivo, colectivo”); e as relações pessoais, que “geralmente são muito cordiais” e em que “todos os cruzamentos são possíveis”. António Filipe reitera: “Há pessoas de bancadas diferentes que são amigas”.

Marques Júnior, do PS, detecta hoje nos debates da Assembleia “uma certa crispação, que tem uma dimensão muito maior do que tinha antigamente”. Fernando Rosas atribui a responsabilidade disso ao primeiro-ministro José Sócrates e às suas intervenções no Parlamento. “Ele imprimiu um cunho de ataque pessoal, a roçar o insulto, que não me lembro de existir em anteriores debates com primeiros-ministros”, defende. “Expressões como ‘O senhor deputado é ignorante’ ou ‘O senhor deputado é desonesto’ são frequentes nos debates com o primeiro-ministro.”

Paulo Rangel diz que “quis manifestar uma coisa que em termos mediáticos e de opinião pública não está consciencializada: a qualidade de muitos deputados e a forma totalmente dedicada com que exercem o seu mandato”. Segundo ele, “temos um Parlamento com mais qualidade do que se diz”, mas “Portugal tem uma cultura de fascínio pelo executivo, o que significa que é antiparlamentar – os deputados são mal vistos”. Nuno Magalhães, do CDS, vê no discurso de Rangel o indício de uma nova geração pós-25 de Abril cuja abordagem política “passa mais pelo consenso do que pelo antagonismo”, porque as relações com os outros partidos já não estão contaminadas pela agitação política desse período. “Não tenho ódios com o Partido Comunista.”

Pode-se, portanto, ver na intervenção de Rangel o começo de uma bela amizade? António Filipe põe as coisas em perspectiva: “É um acto de despedida. Noutro contexto não faria tanto sentido.”

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