Depois da festa, o Fórum das Esquerdas começa a construir pontes políticas

14.12.2008 - 09:38 Por Leonete Botelho
Encontro das "esquerdas", segunda parte: depois do sucesso da festa-comício do Teatro da Trindade, em Junho, hoje é dia de trabalho a sério na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, culminando às 17h00 com uma "Aula Magna" dada por Manuel Alegre, Ana Drago e Maria do Rosário Gama.
Sob o tema Democracia e Serviços Públicos, a partir das 11h00 e distribuídos por anfiteatros, analisam-se os temas centrais de qualquer bom programa eleitoral: economia e educação de manhã, cidades, trabalho e saúde à tarde.
"Para a esquerda, isto é um ciclo novo", afirma o grande protagonista deste movimento, Manuel Alegre, para quem este deve ser um "caminho de construção de soluções alternativas, que tenham consequências na vida das pessoas". Os sinais parecem indicar que se caminha para um novo partido, mas ninguém o aceita ou assume. "O excesso de organização às vezes mata", afirmou Alegre ao Expresso, defendendo que a aproximação das esquerdas deve ser um "processo natural", o mais possível.
Um dos promotores desta iniciativa, o sociólogo Elísio Estanque, faz uma leitura política mais incisiva sobre esta aproximação. No seu blogue (boasociedade.blogspot.com) duvida de uma "eventual convergência quanto à criação de uma imaginada frente eleitoral ou de um qualquer programa político alternativo". Mas, acrescenta, "a manterem-se estes canais de diálogo, e caso o PS venha a perder a maioria absoluta (e precise dos deputados do BE para governar), será mais fácil isso acontecer com Manuel Alegre no PS do que fora dele". Certo é que, neste Fórum das Esquerdas, só um partido está inteiro na organização: o BE. Os outros são franjas críticas do PS e ex-PCP ou intelectuais independentes.
A grande novidade desta iniciativa é a participação de Manuel Carvalho da Silva, secretário-geral da CGTP e militante comunista. Embora não suba ao palco da Aula Magna ao fim da tarde, aceitou ser moderador do painel sobre trabalho, em que são oradores o catedrático Jorge Leite, o sociólogo Elísio Estanque e a deputada do BE Mariana Aiveca.
A manhã começa com dois debates essenciais, economia e educação. Na economia destacam-se quatro "Ladrões de Bicicletas", os bloggers José Castro Caldas, professor do ISCTE, que modera, acompanhado por João Rodrigues, o socialista Jorge Bateria e o politólogo André Freire, além do economista Alexandre Azevedo Pinto, do Movimento Intervenção e Cidadania (MIC) dinamizado por Alegre.
Do mesmo blogue, José Reis, ex-secretário de Estado do Ensino Superior, salta para o fórum sobre educação, moderado pelo ex-secretário-geral da Fenprof, Paulo Sucena, um renovador comunista. Neste painel intervêm ainda a deputada do BE Cecília Honório, Jorge Martins e Nuno David, co-autor, com Helena Roseta, do livro sobre a candidatura presidencial de Alegre. À tarde, Helena Roseta modera o debate sobre cidades, com Manuel Correia Fernandes, Pedro Soares, Fernando Nunes da Silva e o dirigente da Liga de Protecção da Natureza Pedro Bingre. Outro membro do MIC, António Nunes Diogo, coordena o painel sobre saúde, com o renovador comunista Cipriano Justo, o deputado bloquista João Semedo, o dirigente da FNAM Mário Jorge Neves e o cardiologista José Álvaro Correia da Cunha.
Sob os olhares desconfiados do PS e do PCP, o Fórum das Esquerdas promete marcar hoje mais um ponto na criação desse "espaço de pluralidade e de discussão livre das respostas concretas a esta crise de civilização" de que fala o apelo à reunião. Ou, como escreveu Natasha Nunes no blogue Les Canards Libertaîres, "mesmo que não seja a junção das forças, a conversa entre esquerdas é sempre apetecível".

