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Crise: Mário Soares avisa que democracia “pode vir a ser posta em causa”

20.11.2011 - 10:13 Por Lusa

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Nunca como antes, escreve Soares, o país viveu “uma crise tão grave”, nem estiveram tão em causa as “conquistas sociais” da Revolução dos Cravos Nunca como antes, escreve Soares, o país viveu “uma crise tão grave”, nem estiveram tão em causa as “conquistas sociais” da Revolução dos Cravos (Daniel Rocha)
O ex-Presidente e líder histórico do PS Mário Soares admite que Portugal nunca viveu “uma crise tão grave como a actual” e alerta que a democracia “pode vir a ser posta em causa”.

Este aviso é deixado no livro “Um político assume-se”, uma “espécie de autobiografia política e ideológica”, e não memórias, como faz questão de assinalar no prefácio o fundador do PS e presidente da República durante dez anos (1986-1996).

“Estou extremamente preocupado quanto ao futuro do meu país, onde desejo morrer”, escreve Mário Soares, 86 anos, no último dos 15 capítulos que compõem o livro, intitulado “E Agora?”.

Nunca como antes, escreve, o país viveu “uma crise tão grave”, nem estiveram tão em causa as “conquistas sociais” da Revolução dos Cravos: “O Serviço Nacional de Saúde, as pensões sociais, a dignidade do trabalho, a tendencial gratuitidade do ensino”.

“Tudo isto pode estar em jogo de perder-se, mas também é a própria democracia que pode vir a ser posta em causa, dadas as exigências dos mercados especulativos e desregulados e a dependência que deles tem a comunicação social”, alerta.

Mário Soares, um dos fundadores do regime democrático no pós-25 de Abril de 1974, questiona a fraqueza dos líderes europeus perante a crise económica e financeira, para a qual, lembra, veio a avisar nos últimos anos e que já levou três países a pediram ajuda externa: Grécia, Irlanda e Portugal.

“Europeísta convicto”, Soares admite que Portugal, desde a adesão à então CEE, “habituou-se a viver acima dos seus recursos”.

Portugal está a ser “a terceira vítima da ganância dos mercados especulativos e da audácia criminosa das agências de rating”.

A crise - escreve ainda Soares - “só pode agravar-se” quando se chega “a uma situação tão estranha”, em que “os mercados comandam os Estados ditos soberanos - em vez de ser o contrário”.

Mário Soares vai lançar o livro “Um político assume-se - Ensaio político e ideológico”, editado pela Temas&Debates, do Círculo de Leitores, no próximo dia 30, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

São mais de 490 páginas em que Soares revisita os tempos de resistência à ditadura de Salazar e Caetano, os tempos da revolução e de governação do país, a entrada na então CEE e a Presidência da República.

Desgaste do PS ajudou à derrota de 2006

Mário Soares confessou ainda que foi incitado pelo PCP e Bloco de Esquerda (BE) a candidatar-se às presidenciais de 2006 e que o desgaste do PS e do Governo de Sócrates ajudou à sua derrota nas eleições.

O fundador do PS lembrou a falta de candidatos à esquerda para as eleições de 2006 no livro “Um político assume-se”.

Tanto o PCP como o BE estariam inquietos com a falta de alternativas e isso mesmo relata Mário Soares neste livro.

O comunista Domingos Abrantes e mesmo o líder do Bloco, Francisco Louçã, procuraram o ex-Presidente e antigo primeiro-ministro.

“Procuraram-me, separadamente, por diversas vezes, na Fundação [Mário Soares], para me incitar a candidatar, embora me dissessem que na primeira volta apresentariam candidatos próprios”, descreve.

Contra a opinião da família, Soares recandidatou-se ao lugar que ocupou dez anos, no Palácio de Belém, depois de uma conversa com o então primeiro-ministro, José Sócrates, em que lhe colocou uma condição: fazer a campanha à sua maneira.

O secretário-geral socialista aceitou e o PS apoiou a candidatura de Mário Soares.

Cinco anos depois desta última campanha em que saiu derrotado por Cavaco Silva, Soares confessa que percebeu cedo -- “quinze dias antes” das eleições - que iria perder e explica a derrota também pela polémica à volta da sua idade (81 anos), mas igualmente pelo desgaste do PS.

“Houve outro elemento que jogou contra mim: o facto de Sócrates e praticamente todos os membros do Governo terem discursado nos vários comícios que fui realizando. Havia já então um efectivo mal-estar contra o Governo e uma aversão contra os partidos”, lê-se no livro.

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22.11.2011 11:36

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