O silêncio sobre a crise tem de ser ultrapassado e é necessário retomar a procura de soluções, afirmam ao PÚBLICO Isabel Jonet, Carvalho da Silva e António Dornelas.
"Não posso acreditar que exista ausência de preocupação, a crise não pode ter desaparecido do discurso", diz Isabel Jonet, presidente da Federação dos Bancos Alimentares. E frisando que recentemente esteve no Congresso da Ordem dos Economistas, onde ouviu Vítor Constâncio a alertar para a gravidade da crise, remata: "Não somos autistas!".
Jonet insiste na ideia de que "esta é talvez a maior crise que assolou o mundo e a maior que assolou Portugal". Para além de que, "em Portugal, há duas crises, uma internacional e outra estrutural, do próprio país". E, voltando às palavras do governador do Banco de Portugal, Jonet sublinha que "a crise está para durar. Vítor Constâncio disse, nesse congresso, que o desemprego em 2010 vai aumentar e muito".
Assim, a presidente da Federação dos Bancos Alimentares considera que "não se percebe que a crise não esteja no discurso e não seja uma preocupação". E defendendo que, "se fosse assim, seria revelador de irrealismo", Jonet conclui: "Eu não sou pessimista e tenho que ser realista. É importante ver-se que se faz algo pelas reinserção das pessoas. Eu preocupo-me não só em dar o pão mas em ensinar a pescar. Mas, quando a pessoa não tem força para segurar na cana ou os rios secaram, é preciso dar o pão para que se recomponha, aprenda e busque novos rios."
O peso da crise real
Também o secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, se indigna com o silêncio sobre a crise e diz, categórico: "Claro que não passou crise nenhuma, porque a verdadeira crise não é a dos accionistas das empresas e a do dinheiro da especulação financeira, a verdadeira crise é a dos desempregados e a da desigualdade".
Carvalho da Silva considera que, no interior da União Europeia, "se diz que a crise já passou, para não resolver a real crise social", e, "quanto muito, dão pinceladas na tentativa de recompor o sistema". O líder da CGTP considera mesmo que "há uma situação de ilusão de que tudo está muito bem e que se está no bom caminho".
Só que a resposta não é no sentido de resolver a crise social, garante Carvalho da Silva, para quem o que "se perspectiva é o aumento da exploração de quem trabalha e o ataque aos direitos dos trabalhadores", para se conseguir "a reposição das taxas de lucro e a manutenção do sistema".
A ideia de que a situação tem de ser ultrapassada é também defendida pelo sociólogo António Dornelas, professor do ISCTE e conselheiro do anterior ministro do Trabalho. "Não acho que o tema esteja erradicado", diz, notando que, "na campanha, houve utilização táctica pelos partidos", o que "não abona" a seu favor. Dornelas está, porém, convencido de que, "assim que as instituições europeias estabilizarem, depois da aprovação do Tratado de Lisboa, o assunto voltará para cima da mesa".
Defendendo que enfrentar a crise é prioritário, Dornelas adverte para que, "só porque os indicadores financeiros dão a sensação de que a crise financeira está aparentemente controlada, não quer dizer que esteja resolvida a crise económica e o desemprego". Sublinhando que "a OIT diz que a economia e o desemprego levarão quatro a cinco anos em regra a recuperar, isto é uma legislatura", Dornelas lembra que "é sabido também que não se absorve o desemprego se o crescimento for abaixo dos dois ou três por cento". Para concluir que "é preciso proteger as pessoas e ajustar os sistemas laborais e a protecção social".
Sobre o futuro e o debate que considera necessário, este professor do ISCTE avança com duas interrogações. Por um lado, questiona: "Sempre vivemos com taxas de desemprego abaixo da média europeia. Se passarmos a estar acima, não é preciso reestruturar políticas sociais e económicas?". E pergunta ainda se as pessoas consideram que "tanto faz a economia não crescer, como crescer acima dos cinco por cento?".
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