Comunidade é apetecível por ser "placa giratória" entre Europa, África e América

23.07.2010 - 08:46 Por João Manuel Rocha
Académicos destacam potencial "diplomático e político" da comunidade, vista como interessante por "ter lá dentro" Brasil, Angola e Portugal.
Austrália, Indonésia, Luxemburgo, Suazilândia, Ucrânia. Subitamente foi como se o mundo descobrisse a importância da CPLP e os candidatos à adesão enquanto observadores fizessem fila para entrar numa organização em cujas virtudes poucos tinham reparado nos 14 anos que leva de existência. Cedo se percebeu que as situações são diversas entre si, com a Austrália a dizer que o único "pedido oficial" que fez foi para o seu embaixador em Brasília assistir à cimeira que hoje decorre em Luanda. Mas o essencial ficou: a comunidade de países lusófonos tornou-se atraente.
Motivações económicas? Também. Embora o interesse possa ser mais político, a crer nas opiniões de académicos ouvidos pelo PÚBLICO, segundo as quais as vontades de adesão são - como afirma Fernando Jorge Cardoso, do Instituto de Estudos Estratégicos - sinal de que a CPLP "não é uma coisa com tão pouca importância como normalmente dão a entender muitas análises".
"Quando nós começamos a receber esta atenção e este nível de interesse por parte de países que, a priori, não pareceria terem afinidades, interesses tão óbvios, isso deve alertar-nos para aquilo que a CPLP pode significar", disse à Lusa o secretário executivo da organização, Simões Pereira, quando começou a polémica sobre a provável adesão como membro de pleno direito da ditadura da Guiné Equatorial, até aqui observador, como o Senegal e a ilha Maurícia.
Suazilândia e Ucrânia formalizaram já o pedido para serem observadores, o Luxemburgo, tal como a Austrália, solicitou um "convite especial" para estar na cimeira de Luanda e a Indonésia vê com bons olhos a participação numa organização em que foi incentivada a envolver-se. "A ideia de trazer a Indonésia e a Austrália para observadores da CPLP existe há algum tempo. Foi em primeiro lugar su- gerida por Timor-Leste e Portugal. Recentemente, o Presidente Ramos Horta voltou a referi-lo em Xangai. Apreciámos a simpática recomendação e estamos a considerá-la", disse num depoimento escrito o embaixa- dor de Jacarta em Lisboa, Albert Matondang, que lembra a influência do contacto com os portugueses de Quinhentos no idioma indonésio.
O interesse do Luxemburgo é expli- cado pelo seu embaixador em Portugal, Alain de Muyser, pelo facto de "um quinto da população [do seu país ser] luso-falante" e pelas "historicamente excelentes relações bilaterais com todos os países da CPLP, principalmente Portugal e Cabo Verde, em matéria política e económica". A organização "tem um papel crescente no plano regional e internacional. O nosso interesse é ter um enviado especial junto da CPLP para poder compreender melhor os seus fins e objectivos, que para nós não podem ser apenas a defesa da língua".
Adelino Torres, professor do Insti- tuto Superior de Economia e Gestão, encontra no interesse pela CPLP também razões comerciais e económicas - de acesso a mercados para escoamento de produtos e obtenção de matérias-primas -, mas considera que a grande vantagem para os países que se associam é terem "um pé em mais uma plataforma com acesso directo à União Europeia, através de Portugal, e à América Latina, através do Brasil, mesmo que seja como observadores". "É atraente porque é uma placa giratória entre Europa, África e América Latina. É mais um sítio onde têm voz."
Cláudio Ribeiro, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), atribui a atracção da CPLP ao facto de ela facilitar o "diálogo e proximidade política" com o Bra- sil - que adquiriu um peso muito importante nos fóruns internacionais - e também com a União Europeia, através de Portugal. "Com um custo baixísssimo, que é favorecer a promoção da língua portuguesa, você tem um canal de diálogo diferenciado", diz este especialista em relações entre Brasil e África, segundo o qual a discussão sobre a abertura da CPLP pode "[ajudá-la] a definir-se melhor".

