Cavaco, um ano do segundo mandato: gestor de limites e de fronteiras

23.01.2012 - 07:28 Por São José Almeida
Olhado pelo eleitorado como a referência, Cavaco tem gerido conflitos e até os provocou. E mesmo com Passos é distante. Em nome da sua autonomia, nunca quis que se concretizasse o projecto de Sá Carneiro.
"Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos." A 9 de Março de 2011, Aníbal António Cavaco Silva, então com 71 anos, tomava posse como Presidente da República, dando início ao segundo mandato, para o qual tinha sido reeleito faz hoje um ano, a 23 de Janeiro de 2011. E logo no discurso de posse - um dos mais importantes que fez na sua longuíssima vida política - Cavaco Silva assumia a sua verdadeira face como político: a do homem que sabe delimitar fronteiras e para quem há limites que não ultrapassa nem admite que sejam ultrapassados.
Racional e frio - ou mesmo calculista, para alguns -, Cavaco iniciava o segundo mandato em Belém, igual a si mesmo. O político hábil e interventor, o executivo que tinha um projecto para o país e que sabia exactamente o quanto era olhado como o "supremo magistrado da nação". Legitimado pela eleição directa e face a um Governo socialista minoritário, fragilizado e por mais de dois anos de crise económica, Cavaco pôde então dar a estocada final em José Sócrates. O primeiro-ministro que foi um dos seus principais adversários políticos e que não temeu afrontá-lo. Desde que Cavaco chegara a Belém, os dois tinham vivido em permanente tensão.
Ciente da importância da mediatização da sua imagem e com uma intuição e saber político de um nível raros na política portuguesa - há três décadas que tem conseguido gerir com mestria a imagem do tecnocrata não-político -, Cavaco sabia que naquele 9 de Março não tinha tempo a perder quanto ao exercício do poder em Portugal. Sabia o quanto é a referência do eleitorado, como é olhado com o agente da estabilidade e o contra-poder dos governos, para mais numa sociedade que tem apetência histórica por caudilhos, o que casa com o seu perfil, tecnocrático e autoritário.
Além disso, era e é adverso a ser responsabilizado pela crise económica. Sabia assim que seria crucial a forma como assumisse as rédeas do poder. E, sem contemplações, atingiu Sócrates, ostentando o cordão sanitário que o distanciava do primeiro-ministro desde o início da relação institucional entre ambos.
Distante de Passos
E com a mesma visibilidade, se bem que sem a agressividade de quem fere de morte, Cavaco tem mantido o cordão sanitário entre si e o actual primeiro-ministro. Ou seja, se foi frio, distante e crítico com José Sócrates, é frio, distante e crítico com Passos Coelho. O que lhe é facilitado até pelo facto de durante dez anos (1985-1995) ter sido primeiro-ministro, por duas vezes com maioria absoluta. Sabe exactamente a margem de manobra que um Governo tem em função da sua base parlamentar. Assim como conhece em profundidade o quadro constitucional em que pode exercer a função presidencial, até onde pode levar os seus poderes, quais os limites da magistratura de influência. Gere essas fronteiras com pinças e, por vezes, na antecâmara da ruptura.
Foi a necessidade de manter a fronteira entre si e os governos que impediu a concretização da ideia de que Cavaco finalmente realizaria o sonho de Sá Carneiro: uma maioria, um Governo, um Presidente. Sabe que a sua autonomia como Presidente e político seria apagada se deixasse concretizar-se essa ideia. Com Passos, existe a distância que existia com Sócrates. Embora sejam do mesmo partido, nada os aproxima. E o confronto nunca se deu porque Passos tem tido uma atitude mais cordata, enquanto Sócrates nunca hesitou em afrontar indirecta ou directamente Cavaco.
Com Passos, há toda uma distância ideológica, já que Cavaco, embora tenha aberto a porta às teses neoliberais (revisão constitucional de 1989 e Lei de Bases da Saúde), não adere a esta doutrina política com o entusiasmo do actual primeiro-ministro e valoriza o papel central do Estado. Visão do Estado diversa que passa também pela diferença de geração. Cavaco é um homem formado antes do 25 de Abril. Passos cresceu em democracia.

