Presidente chama partidos para ronda em Belém. Sócrates mantém a tensão e cenário de demissão.
Os avisos de Cavaco Silva - em público e em privado - já vinham de longe. Mas o gatilho foi a inesperada "guerra" entre o Governo e o PSD por causa do Orçamento que levou o Presidente da República a anunciar uma ronda de audiências em Belém na próxima semana com os partidos. A agenda é a situação política, económica e social, mas todos sabem do que se trata: as ameaças à volta do Orçamento do Estado (OE) de 2011, depois de ter falhado a negociação prévia entre José Sócrates e Pedro Passos Coelho - sem Orçamento o Governo demite-se. O primeiro-ministro repetiu, ontem, em Nova Iorque, a ameaça feita na véspera, na RTP, pelo ministro Pedro Silva Pereira.
Em Belém, houve dois sinais de alarme na quinta-feira: as intervenções extremadas dos ministros de Teixeira dos Santos, no Parlamento, e Silva Pereira. O objectivo de Cavaco, sabe o PÚBLICO, é fazer baixar a temperatura política e tentar (re)abrir as vias de diálogo. A expectativa na Presidência não é que saia um acordo após as audiências de terça e quarta-feira, mas, pelo menos, que se tente reparar a confiança entre Sócrates e o PSD. Mas a desconfiança é tal que Passos admitiu não voltar a reunir-se a sós com Sócrates. Ambos têm versões diferentes sobre a existência, ou não, de condições prévias para negociar.
No PS e no Governo, as audiências foram bem recebidas, por chamar o PSD ao terreno da negociação. De Nova Iorque, Sócrates saudou a iniciativa, embora diga que não é a Cavaco que compete "fazer Governos" ou "resolver problemas". O primeiro-ministro voltou a pôr o foco na responsabilidade dos partidos e do PSD, lamentando que "se tenham colocado na posição que exige que o senhor Presidente faça consultas". Na direcção do PSD, o gesto do Cavaco é visto ao inverso: uma forma de "forçar" o Governo a conversar.
O dia começou ainda com as ondas de choque da entrevista de Silva Pereira em que o ministro admitia a demissão do Governo se o OE não fosse aprovado. António Nogueira Leite, negociador do PEC II com Teixeira dos Santos e membro do Conselho Nacional do PSD, começou por dizer, manhã cedo, às rádios, que era preciso "levar a sério" a ameaça de Silva Pereira. Algo que levou o ministro Jorge Lacão a considerar uma "resposta imoderada".
Depois, numa conferência de imprensa, Nogueira Leite recentrou o discurso. Embora mantivesse o tom crítico, alertando para os efeitos negativos que uma ameaça deste tipo tem nos mercados, disse ter esperança numa viabilização do Orçamento. Mas antes devolveu as acusações, dizendo que as "brincadeiras" e "o jogo político" prejudicam a imagem e a reputação do país no exterior.
Nogueira Leite garantiu que, nas negociações do PEC II, o PSD deu condições, através do aumento de impostos, para resolver os problemas colocados por Teixeira dos Santos. Agora, novos aumentos de impostos, os sociais-democratas não aceitam, insistindo na acusação de que o Governo continua a esbanjar dinheiro e não corta na despesa pública. O PSD voltou, então, ao tom mais moderado das declarações de Passos Coelho, na véspera, que continuava disposto a viabilizar o Orçamento. Com as duas condições de corte na despesa e não aumento dos impostos. Mas esse aumento de impostos, com mais ou menos nuances de linguagem, é algo que Sócrates admite para o próximo ano.


