Cavaco diz ser o provedor do povo mas mantém silêncio sobre as reformas

21.01.2012 - 21:36 Por Nuno Sá Lourenço

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Cavaco fugiu à polémica durante todo o dia Cavaco fugiu à polémica durante todo o dia (Foto: Adriano Miranda)
A polémica já vinha de sexta-feira, mas a agenda preenchida do Presidente da República para este sábado forçou-o a confrontar-se com as declarações da do dia anterior sobre a sua reforma. Cavaco Silva esquivou-se às perguntas.

Questionado pelos jornalistas disse apenas que já tinha falado no novo centro logístico do Grupo Garland, que foi inaugurar na Zona Industrial da Maia, e que tinha dito “coisas importantes”.

Quem considerou importantes as declarações de sexta-feira do Presidente foram o Partido Comunista Português (PCP) e o Bloco de Esquerda (BE). O secretário-geral comunista, Jerónimo de Sousa viu nas contas feitas pelo Presidente um “insulto” aos portugueses em maiores dificuldades. “Houve muita precipitação, muita insensibilidade, acaba por ser um insulto a esses portugueses que têm tantas dificuldades”, começou por afirmar.

“Num contexto tão difícil para os portugueses, particularmente os que vivem das suas baixas reformas e pensões, sabendo que o actual Presidente da República - e não vamos agora questionar o quantitativo - beneficia de um rendimento de 10 mil euros, isso é quase ofensivo para os ouvidos e a vida desses portugueses que não sabem como é que se hão-de governar com 200 e 300 euros de reforma”, sublinhou.

Também o Bloco de Esquerda, através do deputado João Semedo, reagiu às afirmações do mais alto magistrado da nação: “Fiquei tão surpreendido que voltei a ouvi-las, para ver se tinha percebido bem. São declarações surpreendentes, que me deixaram absolutamente estupefacto, porque me recordo que ainda há bem pouco tempo o presidente Cavaco Silva promulgou um Orçamento de Estado que elimina o 13º e 14º meses para os reformados com rendimento mensal de 600 euros.”

O deputado sublinhou o contraste entre a situação financeira de Cavaco e de outros portugueses sem as mesmas condições: “Esses são os portugueses que contam cêntimo a cêntimo para chegarem ao fim do mês e conseguirem sobreviver. Esses são os portugueses que têm dificuldade em pagar as suas despesas”, sintetizou. O secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, também reagiu: “Acho que são uma falta de sensibilidade, percepção e interpretação dos problemas profundos em que vive grande parte da sociedade portuguesa e que se meteu numa grande trapalhada face aquilo que são os seus rendimentos reais e a diferença entre eles e a realidade em que se encontra grande parte da população portuguesa”, afirmou.

A polémica não impediu Cavaco de falar de si mesmo como “Presidente do povo”, mas não só: “O Presidente da República é o provedor das incertezas, das angústias mas também das ambições do nosso povo. O PR é, de facto, o provedor do povo”, disse na sua passagem por Famalicão.

Na sexta-feira, o Presidente disse que o que receberia como reforma “quase de certeza que não vai chegar para pagar” as suas despesas. Cavaco fora questionado sobre se se sentia confortável por ir receber subsídios de férias e de Natal, enquanto pensionista do Banco de Portugal (BdP), que ainda não decidiu se vai ou não pagar esses subsídios aos pensionistas. Cavaco Silva recebe uma pensão entre quatro a seis mil euros do Bdp e outra de 1300 por 40 anos de descontos como professor universitário.

O desconforto com a polémica levou alguns a evitar o comentário. Do PS não se ouviu uma reacção. Nem mesmo o adversário derrotado nas últimas presidenciais quis abordar o tema, quando a isso foi desafiado pelo PÚBLICO. Contudo, Fernando Nobre, presidente da Assistência Médica Internacional (AMI) e também candidato na última corrida a Belém, não se mostrou tão cauteloso: “Se efectivamente o que o Presidente da República disse está correcto, e se ouvi bem, pergunto-me o que estarão agora a pensar os mais de 300 mil portugueses que têm reformas inferiores a 300 euros.”

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