Autarcas-gestores chegam a ganhar quase o mesmo que o Presidente da República

24.06.2005 - 11:59 Por José António Cerejo
Muitos autarcas portugueses, em particular os que acumulam os seus lugares de vereadores ou presidentes de câmara com os de membros dos órgãos sociais de empresas municipais e intermunicipais, auferem vencimentos próximos dos do Presidente da República.
A situação destes políticos viola abertamente uma lei de 1988 que estabelece um tecto de 75 por cento do somatório do vencimento e despesas de representação do Presidente da República para o total das remunerações ilíquidas de quaisquer titulares de cargos e funções públicas, ainda que em regime de acumulação.
Entre outras possíveis, o PÚBLICO analisou as declarações de rendimentos da vereadora do Urbanismo da Câmara de Lisboa, Eduarda Napoleão, que evidenciam o facto de a autarca ter recebido em 2003 um total ilíquido de 133.684 euros da câmara e de uma empresa ligada ao município, quando o tecto de 75 por cento fixado pela Lei 102/88 de 25 de Agosto, relativamente às remunerações do Presidente da República, rondava nesse ano os cem mil euros.
De acordo com a declaração que apresentou ao Tribunal Constitucional (TC) em 2004, a vereadora, que veio com Santana Lopes da Câmara da Figueira da Foz, acumulou, a partir de Março de 2003, as suas funções autárquicas com as de presidente da Ambelis, uma empresa criada no mandato camarário de Jorge Sampaio com o fito de promover o desenvolvimento económico de Lisboa.
Dois meses depois assumiu o estatuto de vereadora a meio tempo - seguindo o entendimento, nessa altura adoptado pelo Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República, que obriga os autarcas que são também titulares dos órgãos sociais de empresas municipais e equiparadas a prescindir de metade do seu vencimento camarário, ou a passar ao regime de meio tempo, que só lhes permite receber metade do vencimento.
Questionada pelo PÚBLICO sobre o enorme fosso existente entre os cerca de 32 mil euros que deveria ter recebido como autarca (quatro meses a tempo inteiro e oito meses a meio tempo) e os mais de 133 mil que declarou ao TC, Eduarda Napoleão disse que, na realidade, auferiu 47.954 euros como vereadora e 85.730 como presidente da Ambelis. O que se passou, explicou, foi que, apesar de ter ficado a meio tempo a partir de Maio, os serviços processaram-lhe o vencimento a cem por cento, em vez de lhe pagarem só metade.
"Todavia, essa situação foi corrigida, tendo sido reposto em 2004 o montante de 16.869 euros, correspondente à remuneração indevidamente processada em 2003", esclareceu o gabinete da autarca por escrito.
Feitas as contas, porém, e apesar da referida devolução de quase 17 mil euros aos cofres municipais, Eduarda Napoleão ganhou um total de 116.815 euros, o que equivale a quase 17 por cento acima dos cerca de cem mil que a Lei 29/87 lhe permitia receber (75 por cento do total dos vencimentos e despesas de representação do Presidente da República).
Posta perante esta situação, a responsável pelo Urbanismo de Lisboa não fez quaisquer comentários, limitando-se a considerar que "a situação se encontra devidamente regularizada".
Remuneração mais que duplicou num ano
A autarca - que, em 2001, era quadro dirigente da Câmara da Figueira da Foz e ganhou 64.261 euros (9349 dos quais a título de trabalho independente) - teve um primeiro ano de mandato em Lisboa bastante mais modesto do que o de 2002. Nesse ano contabilizou apenas 48.561 euros, visto que, embora estando a tempo inteiro na câmara, não acumulou essas funções com quaisquer outras.
Quanto a 2004, ano em que se manteve como presidente da Ambelis até Junho e assumiu, a partir de Julho, a presidência da Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL) em representação do município, a vereadora ficou também muito acima dos 75 por cento do referencial do Presidente da República. Desta vez, o total recebido foi de 114.562 euros, cabendo 49.727 aos seis meses como presidente da Ambelis, 40.251 aos outros seis como presidente da EPUL e 24.584 ao meio tempo como vereadora - valor muito próximo do de 2003 e que corresponde a bastante mais do dobro daquilo que recebeu no primeiro ano de mandato.

