Ex-candidato prometeu não se pronunciar até ao final de Maio. Especialistas vaticinam que o movimento acabará por esboroar-se.
Prometeu ficar em silêncio e é em silêncio que Fernando Nobre pretende continuar. Um mês depois das presidenciais, o ex-candidato regressou à sua vida profissional e, enquanto não encerrar as contas, ninguém lhe ouvirá uma palavra sobre o que pretende fazer com os 593 mil votos (14,07 por cento) que conquistou. "Retomei em pleno as minhas funções de presidente da Fundação AMI e de catedrático na Faculdade de Medicina de Lisboa. Sobre a minha candidatura não falo mais até ao final de Maio", disse Nobre ao PÚBLICO, que já garantiu não pretender fundar um partido político.
Apesar da postura discreta que mantém, Fernando Nobre não parece inclinado a deixar o palco político, até porque já se assumiu como "porta-voz" de um "movimento da cidadania" que esteve por trás da sua candidatura, para além de se sentir "portador de uma responsabilidade perante as pessoas que votaram" em si.
Mas há quem anteveja um caminho espinhoso para o fundador da AMI. "À partida, a candidatura de Fernando Nobre está condenada a não ter lastro, a não ter continuidade. Pela sua própria natureza, esta candidatura é episódica não tanto pelas ideias que dela emanaram, mas pela forma como foi tratada durante as presidenciais", afirma o professor de Direito Carlos Abreu Amorim. Se a campanha tivesse sito feita com "mais inteligência política", Nobre poderia ter mudado o resultado das presidenciais.
Advertindo para o perigo de uma eventual instrumentalização por parte do PS, numa alusão ao recente jantar que Nobre teve com Sócrates, patrocinado por Mário Soares, o comentador diz que a "mensagem que passou foi exclusivamente de protesto contra o statu quo. É uma ideia precária à partida, porque não há um projecto político minimamente esboçado. Nem me parece que Fernando Nobre tenha capacidade política para o construir."
Neste quadro, Carlos Abreu Amorim vaticina: "A candidatura de Nobre vai acabar por eclipsar-se, ficando como uma mera recordação. Ou acaba por ser instrumentalizada: o destino natural de quem não tem identidade."
Para o politólogo Manuel Meirinho Martins, "qualquer candidatura que tenha aquele tipo de perfil esgota-se após as eleições", porque "não está na luta política diária". E atira mais um argumento: "É muito difícil transformar as dinâmicas de cidadania ou pseudocidadania em movimentos políticos partidários organizados".
Neste contexto, sobra apenas a "dimensão de uma intervenção cívica, de capitalização do apoio obtido nas eleições". Mas Meirinho não deixa de notar que a "dimensão de continuidade de intervenção política, ancorada na lógica da cidadania e num processo de alerta contínuo, precisa de ser pensada para não se esgotar. Em muitos casos tende a esboroar-se se ultrapassar essa dimensão de intervenção." O caminho é duro porque "há o risco de erosão": "Como não pode passar para uma dimensão organizativa, gradualmente está sujeita à esclerose normal, como aconteceu com Alegre", constata, alertando para os riscos de haver um "outro casamento com o PS".
Já o politólogo António Costa Pinto até elogia o silêncio que Nobre decretou a si próprio, mas adverte para "o perigo de transformação de campanhas eleitorais para a Presidência em movimentos políticos ou cívicos". Citando o exemplo de Alegre, dá nota dos "falhanços" nestes casos e deixa um conselho: "Fernando Nobre terá de ver muito bem até que ponto a conjuntura de protesto actual lhe é favorável ou não." E embora seja "propícia à emergência de movimentos políticos" e de "a conjuntura política de Alegre ter terminado, não é fácil a transformação de candidaturas eleitorais de relativo sucesso como foi a de Nobre numa plataforma política", adverte.


