Coube a António Barreto pôr o dedo na ferida política portuguesa. Nas comemorações do Dia de Portugal, o presidente da sua comissão organizadora pediu diálogo e verdade à classe política, “o que infelizmente tem sido pouco habitual”.
Antes da intervenção do Presidente da República, o professor discorreu sobre o actual momento político do país, lembrando que já outras vezes se viveram situações de crise e que foi possível ultrapassá-las e que mais uma vez isso pode acontecer. “Não é seguro que o faça. Mas é possível”, disse.
O problema, apontou, é aquilo que é novo. Além do contexto internacional e nacional, as atitudes dos políticos. “O facto de alguns políticos não terem dado o exemplo do sacrifício que impõem aos cidadãos. A indisponibilidade para falarem uns com os outros”. “A crispação política”, o Estado “refém de interesses particulares, nomeadamente partidários”.
Por isso, o professor de Sociologia deixou o alerta: “As democracias, em geral, não são derrotadas, destroem-se a si próprias”. Seguido do pedido: “Que sejam capazes, como não o foram até agora, de dialogar e discutir entre si e de informar a população com verdade”.
“Compete-lhes estabelecer objectivos, firmar um pacto com a sociedade, estimular o reconhecimento dos cidadãos nos seus dirigentes e orientar as energias necessárias à recuperação económica e à saúde financeira”, enunciou, como se fosse um caderno de encargos para o governo ainda em formação.
Por fim, António Barreto regressou a um dos seus temas preferidos, mas que agora volta a ganhar uma nova actualidade: a revisão constitucional. Porque, diz, a actual Lei Fundamental é “anacrónica, barroca e excessivamente programática”, a sua revisão é “indispensável”.
Nessa alteração, propõe um novo sistema eleitoral, um “reexame das relações entre os grandes órgãos de soberania”, o fim da “ameaça de governos minoritários e de Parlamentos instáveis” e uma “profunda reforma da Justiça”. Porque, frisou, “a liberdade necessita tanto de Justiça quanto de eleições”.


