Alegre: União monetária sim, golden shares também

23.07.2010 - 07:38 Por Leonete Botelho, Nuno Simas
Manuel Alegre é um defensor da união económica e política. Mas também pensa que isso não deve impedir algumas políticas proteccionistas, como o uso de golden shares.
Defende maior integração europeia, mas concordou com o uso da golden share da PT, apesar de ser ilegal à luz das leis europeias. Não é contraditório?
Eu defendo que deve haver, além de uma união monetária, também uma união política. Para isso tem de haver maior coordenação económica, e neste momento não há, e mecanismos de solidariedade e emergência que impeçam crises como esta. Como nos Estados Unidos e nos países que têm um orçamento centralizado: quando há crises, há transferências automáticas. Aqui temos o Pacto de Estabilidade e Crescimento, mas não funciona. Em relação à Grécia, o tempo que se demorou... E isso teve um efeito de contágio, permitiu o ataque especulativo ao euro e a economias como a nossa.
Mesmo assim, defende o uso de um instrumento proteccionista ilegal?
Não acho que seja ilegal. Há uma Constituição económica não- escrita na Europa. O Tratado de Roma permite a coexistência de um sector público e de um sector privado. Se quiséssemos nacionalizar a PT, nenhuma lei o impediria. O que há é preconceitos ideológicos que também estão por trás das decisões do tribunal.
O tribunal europeu interpreta sempre de maneira muito restritiva estes conceitos e é sempre a favor do império do mercado. São preconceitos ideológicos ultraliberais que hoje dominam.
Houve muitos portugueses a aplaudirem a decisão...
Eu não gostei de ver, e não foi só Marcelo Rebelo de Sousa, eu não gostei de ver a maneira como o actual comissário se regozijou com a decisão, devia ter sido mais contido. Se formos ver a imprensa espanhola, eles lá são muito proteccionistas. Qualquer empresa portuguesa tem muita dificuldade de se estabelecer em Espanha, dizem que não há barreiras, mas há muitos entraves. E nós vemos como lá toda a gente tomou partido pela Telefónica. Também não percebo como é que aqui houve tanta gente que parecia que estava contra a PT. Estranho. É o dogma ideológico a sobrepor-se ao interesse nacional.

