Alegre contra o “Estado mínimo” que conduz à “asfixia social e democrática” 
19.09.2009 - 20:55 Por Margarida Gomes, Leonete Botelho
Manuel Alegre surgiu ontem em Coimbra ao lado de José Sócrates, a quem tantas vezes se opôs nos últimos anos, para “afirmar a unidade do PS no essencial”. “Portugal precisa de um governo de esquerda e a esquerda possível é o Governo PS”, afirmou o histórico socialista, que acabou por ficar no PS depois de meses a ponderar sobre a criação de uma nova força política.
Num discurso construído em torno dos valores socialistas e contra a “direita de interesses” – e sem nunca elogiar o líder do PS –, Manuel Alegre começou por definir o que está em causa nestas eleições. O essencial, disse, é “recusar um Estado mínimo para os pobres e um Estado máximo para os poderosos” que diz ser defendido pelo PSD.
“A lógica do Estado mínimo traz consigo uma lógica de asfixia social, e esta, sim, traz asfixia democrática”, proclamou Alegre, numa intervenção constantemente interrompida por aplausos da assistência. “Quando se esvazia um direito social, estão a enfraquecer-se os direitos políticos”, afirmou, no Pavilhão do Clube Académico de Coimbra praticamente cheio.
O ex-candidato presidencial que não foi apoiado pelo PS e que agora se recusou a integrar as listas de deputados centrou-se então no Serviço Nacional de Saúde, lembrando que no programa do PSD não há uma única referência ao SNS: “Essa omissão é um programa político”, considerou. E fez um rasgado elogio à ministra Ana Jorge, cabeça de lista do distrito de Coimbra, em contraste com as críticas que fez ao seu antecessor, Correia de Campos.
Visão aberta
Se o SNS é a “maior diferença entre PS e PSD, Manuel Alegre lembrou mais algumas: o investimento público, as leis da paridade, do divórcio e da interrupção voluntária da gravidez. “Uma visão aberta ao mundo”, contra o tempo do “orgulhosamente sós”. E ainda outra: “O cravo vermelho na lapela é a diferença entre o PS e o PSD”, sublinhou, numa alusão ao facto de nem Cavaco Silva nem Manuela Ferreira Leite o usarem nas comemorações oficiais do 25 de Abril no Parlamento.
Para o fim Alegre guardou alguns avisos ao PS de José Sócrates: “Um governo tem de ser capaz de se renovar, de se repensar”. E uma recomendação: “E que nunca se esqueça que o poder não é um fim em si mesmo, mas para servir as pessoas”. “Eu estou como sempre estive com o meu partido de sempre, o PS, contra a direita dos interesses”, concluiu.
José Sócrates pouco tinha a acrescentar. Começou por elogiar o PS como “o partido da unidade”, que “não exclui ninguém”. “Este é o partido que todos conhecemos, o partido do Mário Soares, que amanhã estará no Porto, de Jorge Sampaio, de Manuel Alegre, de António Arnaut” e tantos outros, frisou. Tal como Alegre, pediu o voto dos portugueses “em nome do Estado social e em defesa do SNS”, que dá “conteúdo concreto ao valor da igualdade, da equidade e da vida humana”. A Ana Jorge coubera anunciar uma promessa: “Nos próximos quatro anos todos os portugueses irão ter um médico de família”.
Mais tarde, num jantar com empresários na Mealhada, a ex-ministra da Saúde Maria de Belém Roseira – cabeça de lista pelo Porto e apoiante de Manuel Alegre – acabou por fazer o que o histórico não tinha feito: o elogio a Sócrates. “Querem um líder que nos motive, nos galvanize, ou preferem alguém que está sempre zangado e que está sempre contra tudo?”
O comício de Coimbra, o maior desta campanha, teve o dobro da assistência do realizado nas europeias, no pavilhão do União, com a participação do líder socialista espanhol, José Luís Zapatero. Vieram pessoas de todo o distrito, mas não só. De Lisboa até veio um grupo de imigrantes paquistaneses radicados há vários anos e que já votam em Portugal. Um deles, Mohammad Murtaza, empresário da área das telecomunicações, não tem dúvidas sobre em que partido votar: “O PS é muito bom para os imigrantes”.
Notícia actualizada às 23h55
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