Administradores da PT com discursos contrários sobre compra da posição na TVI

16.02.2010 - 08:46 Por Ana Brito
Enquanto permanece em aberto o futuro de Rui Pedro Soares e Fernando Soares Carneiro na Portugal Telecom (PT), os dois administradores executivos envolvidos na polémica das escutas, torna-se evidente que a existência de fragilidades e divergências no interior da administração já não é nova e vem, pelo menos, desde Junho do ano passado, quando esteve em cima da mesa o negócio da TVI.
Na noite de 25 de Junho de 2009, quando o presidente do conselho de administração da PT, Henrique Granadeiro, informou o primeiro-ministro de que a operadora tinha negociado a entrada na Media Capital, mas que o negócio não se iria concretizar, o presidente da comissão executiva, Zeinal Bava, esteve na RTP a explicar os méritos da operação.
Nessa mesma tarde, a Prisa comunicou ao mercado a existência de negociações com a PT para uma eventual tomada de posição no capital da Media Capital. Também nessa tarde, o conselho de administração da PT esteve reunido e, perante os pedidos de esclarecimento de alguns administradores sobre as notícias e o próprio pedido de explicações exigido nesse dia pelo Presidente da República, foi confirmada a existência de negociações em curso, ainda que não houvesse, à data, qualquer desfecho, nem tenham sido apresentados números, apurou o PÚBLICO.
À hora de almoço, Cavaco Silva tinha exigido à PT explicações sobre as negociações com a Prisa, dizendo tratar-se de "uma questão de transparência". Foi nesse contexto, e com mandato do conselho de administração, que Bava foi à RTP. Mas nessa mesma noite, enquanto o CEO da PT defendia com unhas e dentes os méritos da operação no programa Grande Entrevista, num jantar que decorria em casa de Manuel Pinho o chairman da empresa já sabia que o negócio tinha abortado e disse-o a José Sócrates, como contou ao PÚBLICO Granadeiro na passada semana.
Novamente contactado, o presidente da PT rejeitou a aparente contradição entre a sua conversa com José Sócrates sobre o fracasso do negócio e as declarações de Bava na RTP, em que este assume a existência de negociações, sem nunca dizer que o negócio já está condenado.
"Se [Bava] não o disse explicitamente na entrevista, disse-o a empresa no comunicado divulgado ao mercado no dia 23 [de Junho]", disse Granadeiro, referindo-se ao documento enviado à CMVM, onde a PT "confirma a existência de contactos" com a Prisa e diz que "não foi contudo celebrado qualquer acordo".
Esse comunicado, garante Granadeiro, "é taxativo" e mostra que o assunto "ficou arrumado" nesse instante. Mas o mercado não terá ficado convencido disso; nem os jornais, que continuaram a noticiar negociações, nem a oposição, que manteve as críticas (Ferreira Leite chegou a falar em negócio ruinoso), nem Cavaco Silva, que dois dias depois exigiu "transparência".
Foi, aliás, para explicar que o negócio fazia todo o sentido para a estratégia da PT, apesar de já não se ir concretizar, que Bava foi à televisão, disse Granadeiro. O objectivo do CEO era esclarecer que "a operação não se fez mas, se tivesse acontecido, não seria lesiva dos interesses dos accionistas. Não há nenhuma contradição", defendeu.

