• Dead Combo e skates na passerelle
  • Kiev, a porta de entrada da Ucrânia
  • Primeira esplanada Time Out do mundo abre na Avenida da Liberdade

Investigador português apresenta novos dados

Acordo secreto entre anglófonos entregava Timor-Leste à Indonésia

16.11.2007 - 12:19 Por Lusa

  • Votar 
  •  | 
  •  0 votos 
O investigador sustenta que Timor-Leste estaria a servir de moeda de troca para conter o nacionalismo indonésio O investigador sustenta que Timor-Leste estaria a servir de moeda de troca para conter o nacionalismo indonésio (John Feder/Reuters)
O investigador português Moisés Silva Fernandes apresenta amanhã, na Universidade de Oxford, dados que comprovam um acordo secreto entre quatro potências anglófonas, em 1963, para entregar Timor-Leste à Indonésia.

Segundo documentos a que o investigador de ciências políticas e de relações internacionais da Universidade de Lisboa teve acesso no Arquivo Nacional da Austrália e no “Foreign Office” britânico, Reino Unido, Estados Unidos da América, Austrália e Nova Zelândia acordaram secretamente, em duas reuniões ocorridas em Washington, em 1963, que o então Timor português só poderia ser incorporado na República Indonésia.

“Sobre Timor, todos concordámos que mais tarde ou mais cedo a Indonésia vai apoderar-se da parte portuguesa da ilha de Timor e todos à volta da mesa tornaram bem claro que os seus governos não estavam preparados para envolver forças militares para evitar esta situação”, lê-se num telegrama enviado pela embaixada australiana nos Estados Unidos para o ministro dos Negócios Estrangeiros de Camberra, em 13 de Fevereiro de 1963.

Nessa data, altos responsáveis das políticas externas dos quatro países anglófonos começaram a sua primeira ronda negocial sobre Timor-Leste, a que se somaria um segundo encontro em Outubro do mesmo ano, também em Washington.

“Estes encontros foram secretos, Portugal nunca foi informado de nada”, adianta o especialista. As reuniões, prossegue, destinavam-se a resolver a questão de Timor-Leste “numa política de apaziguamento em relação à Indonésia”.

Moeda de troca para nacionalismo indonésio

O investigador sustenta que Timor-Leste estaria a servir de “moeda de troca” para conter o nacionalismo indonésio, à data liderado por Sukarno, e possíveis ambições territoriais de Jacarta em relação à Papua Nova Guiné Oriental (então uma colónia australiana), e a uma “grande Malásia” que se criara a partir de antigas possessões britânicas no Sudeste asiático.

“Estava escrito em Washington que Portugal era o peão a cair”, em nome dos interesses das potências ocidentais no Sudeste asiático. “Será que a decisão tomada a respeito de Timor-Leste foi o rebuçado que se deu aos indonésios para não criarem problemas na Papua Nova Guiné Oriental?”, pergunta o investigador.

Em Outubro de 1963, os quatro países anglófonos voltaram a reunir consenso sobre Timor-Leste em Washington. “O ideal do nosso ponto de vista seria que os portugueses cedessem Timor de boa vontade e de um modo que a transferência para a Indonésia não seja o resultado de uma agressão ou de um movimento cínico apaziguador para o Presidente (indonésio) Sukarno, lê-se num documento secreto de preparação da diplomacia londrina para o segundo encontro.

Para o investigador português, a interpretação destes novos dados é clara. “Onde outros podem ver ‘realpolitik’, eu vejo cinismo”, comenta.

A Indonésia invadiu Timor-Leste em 7 de Dezembro de 1975, 12 anos após estas reuniões secretas, e, com o silêncio das potências ocidentais, ocupou o território até à consulta popular de 30 de Agosto de 1999, cujo resultado conduziu à independência do país asiático de expressão portuguesa.

Indonésia estava a para

“Se Portugal soubesse deste consenso ocidental e regional, talvez tivesse existido mais cautela nas reuniões que manteve com a Austrália a propósito do plano de descolonização para Timor, porque a Austrália não estava de boa-fé”, comenta Moisés Silva Fernandes. A Indonésia, nota, também estava ao corrente das iniciativas de descolonização de Timor-Leste, bem como do posicionamento secreto das potências ocidentais.

“Ao contrário da tese que se generalizou, Portugal não abandonou Timor-Leste em 1975, porque pouco podia fazer”, considera o investigador da Universidade de Lisboa.

Estes novos dados são apresentados amanhã num seminário na Universidade de Oxford dedicado a assuntos contemporâneos de Portugal e Timor-Leste.

Estatísticas

  • 75 leitores
  • 0 comentários

URL desta Notícia

http://publico.pt/1310918

Comentário + votado

X

Mais em Política (4 de 11 artigos)

A factura dos hospitais públicos à farmacêutica aumentou 34,7 por cento desde o início do mandato de Sócrates Governo garante que este ano a dívida dos hospitais à indústria farmacêutica será inferior à de 2006