Durão Barroso tinha acabado o comício-festa da rentrée social-democrata de 2002 em Caminha e estava insatisfeito com o resultado. O então presidente do PSD e primeiro-ministro virou-se para os seus mais próximos e disse: "Assim nunca mais." A frase foi o rastilho para o nascimento da Universidade de Verão (UV) do PSD. Uma escola de formação política que desde 2003 assinala oficialmente o início do ano político do partido e que hoje começa em Castelo de Vide. O "reitor" Carlos Coelho e a sua equipa querem que os jovens terminem o "curso" convencidos de que podem mudar o mundo.
Cem "universitários" voltam a trocar o tempo de férias por uma intensa semana de formação política. Foram seleccionados entre cerca de 350 candidatos. O trabalho começa todos os dias às 10h00 em ponto e nunca termina antes das 23h00. Durante uma semana, vão discutir e reflectir em grupo sobre as mais variadas questões políticas e cívicas. "De forma aberta e sem tabus", um dos lemas da UV. Vão ouvir e fazer perguntas aos muitos "professores" que ao longo da semana vão passar pela UV.
E este ano novamente com nomes sonantes, como Mário Soares, Mariano Rajoy, presidente do Partido Popular espanhol, o sociólogo António Barreto, os ministros Nuno Crato (Educação), Miguel Relvas (Assuntos Parlamentares) e Vítor Gaspar (Finanças) e a presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, entre outros. Passos Coelho, que o ano passado encerrou a UV como líder da oposição, fecha a iniciativa no domingo já como primeiro-ministro (programa e participantes em http://psdeuropa.eu/univerao/).
"Sucesso sem paralelo"
Durão estaria longe de imaginar que o seu descontentamento com a forma como tinha decorrido o comício de 2002 em Caminha viesse a dar lugar a uma iniciativa que no PSD é hoje considerada um "sucesso" e "sem paralelo em Portugal e na Europa".
"Não há na Europa nenhuma escola de formação política como esta. Feita com o rigor e com o empenho com que esta é feita", diz José Matos Rosa, secretário-geral do PSD e um dos homens que ouviu o desabafo de Durão Barroso em Caminha.
"Ele [Durão] não tinha gostado da forma como o comício tinha corrido. Ainda eram aqueles comícios-festa, com música e discursos misturados e ele disse que não queria mais daquilo", conta o na altura secretário-geral adjunto do PSD. Durão Barroso, recorda Matos Rosa, alegava "que se gastava muito dinheiro e que a coisa não tinha sumo", que "era preciso fazer diferente e organizar uma academia como se fazia noutros países".
É aqui que surge um nome considerado fundamental para o sucesso da iniciativa: Carlos Coelho. O eurodeputado do PSD é convidado por Barroso em 2003 para elaborar um plano de formação de quadros.
Coelho elabora esse plano, que decorreria ao longo do ano, com diversas acções dirigidas a jovens, autarcas e elites do PSD. O trabalho culminaria com uma iniciativa em que os quadros formados estariam presentes e em que o presidente do partido faria uma intervenção final. O PSD lançaria assim o ano político, acabando com os comícios-festa que tanto desagradavam a Barroso.
Em Maio de 2003, José Luís Arnaut, então secretário-geral do partido, diz a Coelho para avançar, só que este achava que não havia tempo, até porque era preciso testar o modelo. É então decidido mudar tudo e arrancar com uma acção de formação para jovens do partido indicados pelas distritais da Juventude Social-Democrata - a partir de 2004 as indicações da JSD deram lugar a candidaturas abertas a independentes e seleccionadas por um júri. Nascia a UV do PSD.
Visibilidade do partido
Carlos Coelho reconhece que o interesse que a comunicação social mostrou pela UV desde o primeiro ano contribuiu para o seu sucesso, mas para ele o verdadeiro segredo é outro: a avaliação que é feita todos anos após a realização da UV pelo grupo de trabalho por si chefiado em que tudo é discutido e avaliado para que o ano seguinte possa correr melhor.
Segue-se um ano de trabalho, com vários encontros do grupo coordenador, os convites às personalidades para os diversos espaços de debate, a análise das candidaturas e a montagem final de uma operação gigantesca que durante uma semana põe 100 jovens a debater e a pensar política mais de 10h00 por dia e que tem um circuito de televisão interno, um jornal diário e dezenas de iniciativas.


