A política está na Internet? Está. Mas a maioria ainda não a usa bem

24.01.2010 - 11:45 Por Luciano Alvarez
No intenso período eleitoral da última metade do ano passado, os políticos surgiram na Internet quase à velocidade com que as andorinhas aparecem na Primavera.
Criaram blogues, páginas nas redes sociais, deram conta das suas agendas, passaram mensagem política, atacaram os adversários e alguns relataram até a sua vida pessoal. Foi, sem dúvida, a maior campanha de sempre feita na Internet em Portugal. Findo o período eleitoral, muitos saíram tão depressa como entraram.
O que ficou desta migração política? O debate ganhou ou perdeu com tal proliferação? Os políticos tiram o melhor partido desta poderosa ferramenta? Qual é o peso desse debate hoje na Internet? Como é que ele vai evoluir em novo ano politicamente forte? Quais as diferenças entre a intervenção feita em blogues e em redes sociais, como o Twitter e o Facebook?
Um grupo de políticos, jornalistas e politólogos, todos com presença regular na Internet, respondeu a estas perguntas e analisou a importância do debate político na Net. As opiniões dividem-se em muitos pontos, mas há um foco de convergência: os políticos portugueses em geral ainda estão longe de utilizar esta poderosa ferramenta da melhor maneira, mas não há marcha atrás.
Os políticos que navegam na Net de modo mais persistente usam-na de formas muito diversas. Uns são absolutamente formais. Vêem a Net como uma poderosa ferramenta política e focalizam-se no tema, na defesa dos seus objectivos e raramente se desviam deste caminho. Outros, a maioria, são menos formais. A política está muito presente, mas não fogem a uma conversa sobre música, gastronomia ou futebol. São estes que habitualmente mais interagem, muitas vezes com desconhecidos, com quem os interpela na rede.
Comecemos pela visão dos mais críticos à forma como os políticos em geral usam a Internet. José Pacheco Pereira, deputado do PSD, comentador político e autor do Abrupto (http://abrupto.blogspot.com/), um blogue de referência no panorama político, afirma que "para muitos, por ignorância ou desinteresse", estar na Net "é mais uma obrigação de campanha do que uma actividade sistemática". "Dizem-lhe que têm que fazer umas coisas na Internet e eles fazem ou mandam alguém fazer por eles. Depois vão-se embora", diz Pacheco Pereira, considerado por muitos o principal impulsionador do debate político na Net em Portugal.
Para o social-democrata, "infelizmente, os políticos que "melhor proveito" tiram da Internet" fazem-no num contexto de "destruição simbólica do adversário, desinformação, condicionamento da comunicação social, com falsas "vagas" de opiniões". "Há muitos jornalistas que se comportam da mesma maneira, logo a simbiose dá resultados num empobrecimento dos media em geral."
Falta de perseverança
José Manuel Fernandes, jornalista, ex-director do PÚBLICO e que tem presença regular nas redes sociais, partilha da opinião de Pacheco Pereira. Refere a presença "residual" de políticos na rede, que "não é eficaz por falta de perseverança" e de "sentido do que pode ser interessante e útil para as pessoas". E o pior, acrescenta, é existirem na blogosfera "demasiados jornalistas e, sobretudo, demasiados anónimos a discutir política", de forma que, "muitas vezes", a discussão aproxima-se "mais do terrorismo que de uma discussão séria".
Por isso, Fernandes, que partilha na Net muita informação que lê na imprensa e nos sítios de debate político a nível internacional, considera que "muito marginalmente a blogosfera marca o debate político" em Portugal. "São raras as discussões que saltam da blogosfera para os espaços de grande informação e há demasiadas tricas em alguns debates."

