Tinha chegado ao fim um dos dias mais longos da história recente de Portugal. Operações militares na madrugada de 26 de Abril de 1974 ainda as havia, embora já não sobrassem dúvidas sobre a vitória do levantamento levado a cabo na véspera pelo Movimento das Forças Armadas (MFA). O Governo rendera-se; Marcelo Caetano e Américo Thomaz encontravam-se detidos; as forças do regime tinham desistido, praticamente sem oferecerem resistência.
Publicado na revista Magazine, do PÚBLICO, a 20.02.1994
Por essa altura, o último ministro da Defesa Nacional, Silva Cunha, talvez recordasse com estupor o conselho que 24 horas antes lhe fora dado pelo director da PIDE-DGS, Silva Pais. «Pode dormir descansado, sr. ministro», tinha-lhe ele dito, precisamente por altura das primeiras operações desencadeadas pelo MFA.
Entrara-se de novo na madrugada e os portugueses, que maioritariamente haviam seguido os acontecimentos do 25 de Abril pela rádio, preparavam-se para conhecer, via TV, o «rosto» do novo poder saído do levantamento militar. Fialho Gouveia tinha já anunciado que o general António de Spínola iria ler uma comunicação ao país, mas, entretanto, o silêncio prolongava-se. Ao todo, 23 minutos de anomalia técnica, até que, nos ecrãs, ainda a preto e branco, surgiu o primeiro plano de conjunto da Junta de Salvação Nacional (JSN), o órgão a quem o MFA entregara o governo provisório da nação.
Ali estavam os primeiros rostos do poder pós-marcelista, pouco antes heróis militares do regime em queda, os generais António de Spínola e Francisco Costa Gomes, destituídos em Março dos cargos de vice-Chefe e Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas por se terem recusado a integrar a «brigada do reumático» -- designação com que ficou conhecido o grupo de oficiais que, nesse mês, acorreu a S. Bento para prestar vassalagem a Marcelo Caetano. Aparentemente, eram eles os homens fortes do novo regime.
A seu lado, encontravam-se o brigadeiro do Exército Jaime Silvério Marques, que fora detido nesse mesmo dia e logo a seguir libertado para integrar a Junta; o coronel da Força Aérea na reserva Carlos Galvão de Melo; o capitão-de-mar-e-guerra José Pinheiro de Azevedo e o capitão de fragata António Alva-Rosa Coutinho, da Marinha -- todos eles promovidos a generais e almirantes por força da sua participação na Junta de Salvação Nacional. Incompleto este primeiro plano de conjunto, já que havia um sétimo elemento, o general Diogo Neto, ainda em Moçambique e que, à data, desconhecia em absoluto o que por cá se estava a passar. Sete oficiais generais, portanto, em representação dos três ramos das Forças Armadas, com idades oscilando entre os 48 anos de Rosa Coutinho e os 64 de Spínola.
Passaram 20 anos e a história do que se passou nessas primeiras horas de existência da Junta de Salvação Nacional continua a ser feita de versões contraditórias, que as rupturas posteriores vieram carregar de ressentimentos.
Memórias cruzadas que o PÚBLICO foi ressuscitar em conversas com quatro dos sete militares que inicialmente integraram aquele órgão. Dos sobreviventes -- o almirante Pinheiro de Azevedo e o general Silvério Marques faleceram entretanto --, apenas o marechal António de Spínola, alegando razões de saúde, se esquivou a este exercício, remetendo para os livros em que testemunhou o sucedido. Para completar o registo, foi também ouvido um dos homens que os escolheu e passou pela primeira reunião da Junta, o agora contra-almirante Vítor Crespo, que então era capitão e membro da Comissão Coordenadora do MFA.
Era 1h24 da madrugada de 26 de Abril quando os seis oficiais generais se apresentaram ao país. Alguns deles mal se conheciam, outros tinham-se encontrado pela primeira vez horas antes, na altura em que entraram no Regimento de Engenharia 1 da Pontinha -- onde se instalara o posto de comando do MFA -- para a primeira reunião da Junta. À semelhança da maioria dos portugueses, também a maior parte deles se havia limitado a seguir os acontecimentos da véspera pela rádio.


