O Presidente de Timor-Leste, Xanana Gusmão, disse hoje a milhares de manifestantes concentrados em frente ao Palácio do Governo, em Díli, que "a esperteza" do povo permitiu ganhar "esta guerra".
"Falhámos em garantir a vossa estabilidade, mas com a vossa esperteza ganhámos esta guerra", afirmou Xanana Gusmão, perante o entusiasmo dos manifestantes, que exigem a demissão do primeiro-ministro, Mari Alkatiri.
No entanto, Xanana Gusmão não avançou qualquer solução para a crise política em Timor-Leste, nem se referiu à ameaça, feita quinta-feira, de resignar hoje ao cargo se Mari Alkatiri não se demitir.
Garantiu, porém, que cumprirá as suas obrigações com base nas exigência s dos timorenses, no que foi interpretado pelos manifestantes como um sinal de que não se demitirá.
"Como vosso presidente, como vosso irmão, honrarei a Constituição. (... ) Cumprirei as minhas obrigações com base nas vossas exigências", afirmou.
Falando num palco improvisado, montado em cima de uma carrinha de caixa aberta, Xanana Gusmão tinha ao seu lado a mulher, Kirsty, e ainda Vicente da Conceição "Railos" - veterano da luta de resistência e comandante do alegado "esquadrão da morte" supostamente criado pelo ex-ministro do Interior Rogério Lobato - e major Alves Tara, um dos oficiais das forças armadas timorenses que abandonou em Maio a cadeia de comando.
Bem disposto e descontraído, substancialmente diferente do homem tenso que anunciou ontem ao país que se demitiria caso o primeiro-ministro não assumisse as suas responsabilidades, demitindo-se da chefia do governo, Xanana G usmão interveio em tétum, iniciando a sua intervenção com vivas ao povo de Timor-Leste e à unidade nacional.
Desdobrando-se em apelos à calma - "manifestem-se à vontade, mas sem violência, sem pisar sequer uma formiga", pediu -, Xanana considerou que os timorenses, que definiu como "um povo que sabe mostrar dignidade e coragem, mas também inteligente e sofredor", têm razão para estarem zangados.
"Em Janeiro passado, fui a Nova Iorque levar o relatório da CAVR [Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação, criada para investigar as violações dos direitos humanos em Timor-Leste entre 1974 e 1999] e prometi [à ONU] que não haveria mais violência", salientou.
"Não passaram cinco meses até que voltou a haver violência", lamentou, referindo-se aos confrontos ocorridos nos últimos dois meses, que provocaram três dezenas de mortos e 145 mil deslocados e levaram as autoridades timorenses a pedirem a intervenção de forças militares e policiais de Portugal, Austrália, Nova Zelândia e Malásia.
Xanana Gusmão considerou que os dirigentes timorenses falharam na promessa de estabilidade.
"Podem apontar o dedo a nós, os governantes, porque falhámos. Não vos demos a estabilidade que prometemos. Mas o povo é que decidiu o seu destino, o seu futuro e, a começar por mim, todos devemos respeitar o povo", frisou.
"Nós [os governantes] temos de ouvir a vossa voz. Eu compreendo o que querem e por isso peço aos governantes que abram os olhos e vejam o sofrimento deste povo", acrescentou.
Xanana garantiu ainda que compreende a voz do povo. "Podem acreditar: estou a escutar a vossa voz", vincou.
Depois de Xanana e a mulher abandonarem o local, o comandante "Railos" dirigiu-se também aos manifestantes apresentando-se como "aquele a quem deram armas para matar". "Vocês não me conhecem, mas eu sou o 'Railos', aquele a quem deram armas para matar. Mas eu apelo-vos que digam não à violência", disse.
Os manifestantes mantêm-se no local, mas em menor número, continuando a ouvir músicas e a dançar, sob o olhar atento dos militares australianos e também de alguns efectivos da GNR portuguesa.
Não há registo de incidentes relacionados com a manifestação.


