Vitória no Uttar Pradesh poderá empurrar Rahul Gandhi para a liderança da Índia

09.02.2012 - 11:25 Por Ana Gomes Ferreira
Durante duas décadas, Rahul Gandhi foi um aprendiz de político. As eleições locais que decorrem no Uttar Pradesh, vão decidir se chegou o momento de o bisneto de Nehru, neto de Indira e filho de Rajiv começar a governar a Índia.
Nos últimos dias de campanha, Rahul disse que não tem a obsessão de ser primeiro-ministro. A sua obsessão é "trabalhar para o povo". O povo, porém, reclama-o. Trata-o por "jovem imperador" (Yuva Samrat) e durante a campanha eleitoral acorreu aos seus comícios - nos dias em que a irmã, Prianka, se juntou à comitiva, as enchentes foram ainda maiores.
O entusiasmo popular galvanizou o Partido do Congresso (que governa a Índia), que perdeu o Uttar Pradesh há 22 anos - o estado voltou costas aos Gandhi, quando os Gandhi desapareceram; Rajiv foi assassinado em 1991. Rahul, que já é deputado estadual, é a alavanca do Congresso para recuperar o controlo nesta região nortenha socialmente pobre mas politicamente muito poderosa. Se fosse um país, o Uttar Pradesh seria o terceiro maior do mundo, com os seus 200 milhões de habitantes.
Por causa da dimensão e das condições de vida - a maior parte da população não tem electricidade ou água potável e as comunicações são pobres -, as eleições realizam-se por fases e só terminam em Março. Previsões sobre o vencedor não há. "A vitória [do Partido do Congresso] aumentaria a moral do partido. Um bom resultado dar-lhes-ia a confiança de que precisam para criar uma estratégia para 2014", disse à Reuters Pralay Kanungo, professor no centro de estudos políticos da Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Deli.
"Desta vez as coisas vão mudar", disse à Reuters o optimista vice-ministro das Comunicaçãs, Sachin Pilot.
Para os analistas, o que se passar no Uttar Pradesh é vital para toda a dinâmica do Partido do Congresso e para o primeiro-ministro, Manmohan Singh, que vai gerindo um executivo de coligação (a Aliança Unida Progressista) desgastado por múltiplos casos de corrupção e por deserções. Singh, um sikh, é o primeiro não hindu a chefiar o Governo.
Se o resultado no Uttar Pradesh for desastroso para o Partido do Congresso, poderá ter como efeito a marcação de eleições gerais antes de 2014. Se lhe for favorável, abrem-se duas possibilidades: ou Singh reforça a sua liderança, ou cede o lugar a Rahul Gandhi.
Não é a primeira vez que se fala de Rahul na chefia do Governo. Quando o pai foi assassinado, o sentimento de orfandade dos indianos voltou-se para ele. Muito jovem, foi afastado da exposição pública pela mãe, Sonia, que nasceu italiana. Seria Sonia, não os filhos, a ganhar relevo político e a preencher o vazio deixado pelos descendentes directos dos Gandhi - venceu as eleições, passou a chefia do Governo a Singh e, neste momento, é a presidente do Partido do Congresso e da Aliança.
"Se Rahul se levantar amanhã e decidir ser primeiro-ministro, dão-lhe posse imediatamente", disse à Reuters uma fonte do Partido do Congresso. Acrescentou que Rahul não tem pressa e quer mostrar resultados para ganhar por mérito. Mas Sonia, doente e à beira de se afastar (terá um cancro e já recebeu tratamento fora da Índia), poderá não permitir que Rahul fuja ao destino. Até porque o filho que preparou durante duas décadas já tem 41 anos - o pai tinha 40 quando se tornou o mais jovem primeiro-ministro do país - e a oportunidade não dura para sempre.
O momento parece propício. A popularidade dos Gandhi, ancorada no sonho de que farão melhor do que os outros, cresce à medida que a dos restantes políticos se afunda. É o que se passa com a mulher que domina o Uttar Pradesh há cinco anos, Kumari Mayawati. Arrasta um lastro de corrupção e enriquecimento ilícito. Gasta milhões de rupias em jóias com que se mostra em público e usa o erário público para mandar fazer estátuas de si, que depois inaugura. Os seus defensores dizem que melhorou a educação e teve coragem para controlar as máfias locais.
Num país onde o sistema de castas ainda rege a mobilidade social, Mayawati, que nasceu pobre, representa o Partido Bahujan Samaj, dos budistas e dos dalites, a casta mais baixa.


