Vinte anos depois, Timor ainda procura as vítimas de Santa Cruz

11.11.2011 - 22:00 Por Isabel Gorjão Santos
Ouvem-se sirenes e tiros, muitos tiros. Há gente baleada no chão, gente a correr. E reza-se em português, tão longe de Lisboa. Foi há 20 anos o massacre que pôs os olhos do mundo em Timor-Leste, mas o país ainda procura as vítimas que morreram naquele dia.
Neste sábado, em Díli, os sinos voltam a tocar em memória das mais de 200 pessoas que morreram no massacre de Santa Cruz e haverá uma marcha até ao cemitério. No Palácio do Governo será exibido o filme “Timor à procura”, do jornalista britânico Max Stahl. Foi ele quem filmou o que aconteceu no cemitério de Santa Cruz. E foi ele que continuou a filmar, até hoje, o nascimento do primeiro país do século XXI.
O seu novo filme mostra os passos dos médicos e antropólogos forenses da Argentina e da Austrália que têm procurado desvendar o que aconteceu às vítimas, e mostra também a entrega às famílias dos restos mortais das primeiras 12 pessoas identificadas. Mas no final mantém-se a pergunta: “Onde estão?”. Segundo o Comité 12 de Novembro, uma organização de apoio às vítimas, 74 pessoas foram identificadas como tendo morrido no massacre e outras 127 morreram pouco depois. Mas as famílias ainda não recuperaram os corpos dos que desapareceram.
Timor ainda está à procura, a câmara de Max Stahl continua ligada como naquele dia 12 de Novembro de 1991. O jornalista britânico é hoje um activista de passaporte diplomático no bolso, mudou-se para Timor-Leste, criou em Díli o Centro Audiovisual Max Stahl onde trabalham cerca de 30 pessoas para preservar cerca de 1300 horas de imagens sobre a resistência timorense e o nascimento do novo país. Porque aquele 12 de Novembro, diz, “nunca se poderá esquecer”.
Homenagem a Sebastião Gomes
Sabia-se que as autoridades indonésias, que tinham invadido o país em 1975, iriam reagir, só não se sabia como. Naquela manhã, mais de 2200 juntaram-se em Díli para prestar homenagem a Sebastião Gomes, assassinado a 28 de Outubro pelas tropas indonésias na igreja de Motael, onde se tinha escondido um grupo de independentistas. Para essa altura estava prevista a visita a Timor-Leste de uma delegação de deputados portugueses e a ocasião seria aproveitada pela resistência timorense liderada por Xanana Gusmão. A viagem acabou por ser cancelada, mas a manifestação em memória de Sebastião Gomes saiu para a rua.
O protesto começou pelas 6h, com uma missa na igreja de Motael. Pela primeira vez, um grupo de jovens ousou pintar cartazes e ensaiar palavras de ordem. “Viva Xanana”, “Viva a resistência, “Não à integração”. Pouco depois começaram os primeiros confrontos com militares indonésios, quando os manifestantes passaram junto ao Palácio do Governo, até que, pelas 8h, o cemitério já estava rodeado por militares. Os manifestantes começam a rezar um terço junto à campa de Sebastião Gomes e ouvem-se os primeiros tiros.
Nessa altura Max Stahl já estava no cemitério. Tinha chegado a Timor em Setembro, fingiu ser turista para entrar no território e fazer um filme sobre a resistência para a Yorkshire Television, que pertencia à cadeia independente de televisão britânica ITV. Mas nem ele poderia imaginar que o seu filme iria correr mundo e ajudar a pôr fim ao longo silêncio sobre a repressão em Timor.
A entrevista a Xanana
Stahl estava em Baucau com membros da resistência quando lhe foi entregue uma mensagem a pedir que se deslocasse a Díli, recorda agora ao PÚBLICO, vinte anos depois. Pensava que iria finalmente entrevistar Xanana Gusmão, há várias semanas que tentava fazê-lo. “Estava com os guerrilheiros das Falintil [as Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste], a 8 de Novembro, e disseram-me que Xanana Gusmão tinha enviado uma mensagem para me deslocar a Díli. Pensei que fosse para uma entrevista com ele, que era muito difícil de conseguir. Já tínhamos cancelado várias vezes.”


