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Nas vésperas do 20º aniversário de Tiananmen

Vem aí o diário secreto de Zhao Ziyang

14.05.2009 - 16:19 Por Fernando Sousa

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Impedido de sair de casa por ter mostrado simpatia com os estudantes de Tiananmen, em 1989, o então número um do Partido Comunista chinês, Zhao Ziyang, escreveu às escondidas a história desses dias. As suas memórias vão sair agora, nas vésperas do 20º aniversário da tragédia.
O livro foi lançado em Hong Kong mas não pode circular na China O livro foi lançado em Hong Kong mas não pode circular na China (TED ALJIBE/Reuters)

Foi no dia 3 de Junho, em Pequim. O líder do PCC conversava com a família. Ainda era um homem livre. De repente ouviu “tiros intensos” na praça, a maior do mundo, onde há semanas milhares de estudantes pró-democracia se recusavam a arredar pé. Tinha começado a matança.

“Esta tragédia, que iria chocar o mundo, não fora evitada”, diz Zhao, que tinha ido falar com os jovens, no dia 19 de Maio, para lhes pedir, de magafone e lágrimas nos olhos, que abandonassem o protesto, por adivinhar o que poderia acontecer - e aconteceu mesmo.

O líder comunista, partidário de reformas urgentes, políticas e económicas, relata uma reunião, semanas antes, na qual Deng Xiaoping e outros altos responsáveis do regime decidiram impor a lei marcial, abrindo com ela a porta à repressão.

“Uma vez que não havia maneira de recuar sem que a situação escapasse de todo ao controle, foi tomada a decisão de fazer entrar o exército em Pequim” para fazer cumprir a lei, disse Deng no encontro. “Nesse momento mostrei-me muito aborrecido”, escreve Zhao.

E a seguir, o que seria o pretexto para o seu posterior afastamento: “Disse para comigo que, acontecesse o que acontecesse, recusava ficar [na história] como o secretário-geral que tinha chamado o exército para reprimir os estudantes.”

Os soldados entraram a disparar na praça, que significa Paz Celestial. Morreram entre centenas e milhares de pessoas – os balanços diferem conforme o Governo e o movimento pró-democracia. O líder reformista caiu em desgraça e foi posto em residência vigiada. Depois do encontro com os manifestantes, nunca mais seria visto.

O que ninguém soube durante anos é que Zhao Ziyang, embora preso, registava, sem a própria família dar por isso, a história desses dias. A BBC News cita por exemplo a filha, Wang Yannan, que disse “não ter sabido nunca” que o pai gravava em segredo tudo o que se lembrava.

Quando se soube do espólio, foi lançada uma campanha complexa para a sua recuperação e transcrição, e futura publicação, escreve Edi Ignatius, o prefaciador de Prisioneiro do Estado: Diário Secreto de Zhao Ziyang, o nome com que vai ser editado pela Simon and Schuster.

De notar que o livro vai poder circular em Hong Kong, mas não na China, onde correrá quanto muito entre a oposição, de umas mãos para outras.

A repressão ainda não acabou: um dos protagonistas da revolta de há vinte anos, Zhou Yongjun, na altura estudante e hoje a residir nos Estados Unidos, foi detido na China, anunciaram os familiares na quarta-feira. Acusação: “fraude”.

O activista pró-democracia era nesse tempo dirigente da União Autónoma dos Estudantes de Pequim. Era um dos que protestavam na praça. Escapou, mas muitos não. Cálculos desse tempo contam que haveria 100 mil pessoas na esplanada, que tem 880 por 500 metros, e, no meio, um monumento com uma frase de Mao Tse Tung: “Os heróis do povo são imortais.”

Gritavam contra a corrupção, a inflação, o desemprego e a morosidade de reformas. Hu Yaobang acabara de morrer. Zhao Ziyang lutava com dificuldades para fazer mudanças.

O exército varreu a praça a tiro. Numa avenida ao lado, um jovem – hoje “o jovem desconhecido”, fotografado por Jeff Widner, da Associated Press – afrontou de peito aberto uma coluna de tanques. A China voltou à vida de todos os dias, mas a ferida ficou. E a memória dela também.

Notícia corrigida às 15h07

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Resposta

Senhor Almeida, se contei o meu caso não foi a queixar-me individualmente, mas sim para denunciar ...

Fonseca

16.05.2009 07:48

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