Vargas Llosa elogia política interna de Lula e defende legalização global das drogas

14.10.2010 - 22:08 Por Alexandra Lucas Coelho, em Porto Alegre
Na sua primeira viagem à América Latina depois do Nobel, Mario Vargas Llosa elogiou o Presidente brasileiro Lula da Silva por ter feito “um muito bom Governo” no Brasil, mas não poupou críticas aos seus “amigos” de Cuba, da Venezuela e do Irão.
Falando à imprensa em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, antes de uma conferência, o escritor peruano defendeu também a legalização global das drogas para combater o narcotráfico, uma ameaça muito forte no México, “que se pode estender a toda a América Latina e pôr em causa a democracia”.
A “indústria do narcotráfico e a corrupção” são os grandes problemas latino-americanos neste momento, crê Llosa, que de resto diz estar “optimista”, com “os progressos” no continente, nos últimos 20 anos.
Com Lula, diz Llosa, “o Brasil cresceu muito, adquiriu um prestígio extraordinário” e hoje é um país visto “como um exemplo a seguir”, que com a Índia e China fará parte “dos que vão estar em primeiro plano” no futuro. “A política de Lula foi muito diferente do que parecia que ia ser. Continuou um modelo de Fernando Henrique Cardoso, respeitou a democracia, na economia aplicou receitas social-democratas e liberais, e tudo isso trouxe bom resultado.” A ponto de Llosa ter usado já a expressão “democracia admirável” em relação ao Governo Lula.
“Mas essa política não se coaduna com o abraço aos irmãos Castro no momento em que morria um dissidente cubano [Orlando Zapata]”, ressalvou o escritor. “Tão pouco se coaduna com a relação estreita com Chávez, um homem que está a destruir a Venezuela. Lula é um líder democrático, sim, mas como é que um líder democrático abraça os irmãos Castro e Chávez e convida Ahmadinejad, responsável por crimes horríveis? São contradições que deveriam ser resolvidas.”
Dias depois do anúncio do prémio, Vargas Llosa disse sentir-se “um pouco como um zombie”, que perdeu a privacidade e ainda não conseguiu pensar sobre o que lhe está a acontecer. “Sempre tive a certeza de que não me iam dar o prémio.” Tanto, contou, que pôs a hipótese de ser uma partida, e esperou os 14 minutos que lhe pediram até ao anúncio oficial para ter a certeza de que era verdade.
Quanto à sua fracassada corrida para Presidente peruano, disse ter aprendido que “a política pode ser ideias e intercâmbios, mas também é intriga e manobra”, “uma actividade que como tudo o que toca o poder traz ao de cima o melhor e o pior, e no caso de uma campanha à presidência sobretudo o pior”.


