Van Rompuy e Catherine Ashton, novas caras na UE

19.11.2009 - 22:49 Por Isabel Arriaga e Cunha, Bruxelas
Uma confirmação e uma surpresa: como esperado, Herman Van Rompuy, primeiro-ministro belga, foi ontem escolhido primeiro presidente permanente do Conselho Europeu, enquanto que o posto de Alto Representante para a Política Externa foi inesperadamente atribuído à britânica Catherine Ashton.
A nomeação de dois quase desconhecidos para os novos cargos criados pelo Tratado de Lisboa foi decidida de forma unânime pelos líderes da União Europeia (UE) durante uma cimeira convocada expressamente para o efeito, que encerrou semanas de especulação e negociações.
Apesar de ter assumido a chefia do governo belga há pouco menos de um ano, Van Rompuy, democrata-cristão flamengo, era há mais de duas semanas o grande favorito da esmagadora maioria dos governos, impressionados pela sua seriedade, bom senso, capacidade negocial e de compromisso. Qualidades que foram amplamente ilustradas pela habilidade com que conseguiu pacificar o seu país à beira da ruptura por causa da guerrilha permanente entre as comunidades flamenga e francófona.
Gratidão à Bélgica
Van Rompuy “assegurará uma liderança inteligente e sábia do Conselho Europeu”, afirmou Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia convicto de que, ao escolhê-lo, “a UE também exprimiu a sua gratidão à Bélgica pelo apoio constante que tem dado ao projecto europeu”.
“Não pedi esta função, mas assumo-a com convicção e entusiasmo”, reagiu Van Rompuy, que encara o cargo como uma missão de impulsionador dos trabalhos do Conselho Europeu (as cimeiras de líderes) com base no maior consenso possível entre os Vinte e Sete. Todos os países e sensibilidades serão ouvidos nas decisões, e “todos deverão sair vitoriosos das negociações”, defendeu.
Ao invés, a escolha de Ahston, comissária europeia responsável pela política comercial desde Outubro de 2008, foi uma surpresa total que causou alguma consternação devido à sua reduzida experiência internacional, excepção feita ao último ano em Bruxelas. A escolha da comissária britânica, que pediu para ser julgada pelas suas acções, tem para já a vantagem de permitir a presença de uma mulher nos cargos de topo da UE, em resposta aos apelos de vários governos e deputados europeus.
O seu nome foi imposto por Gordon Brown, primeiro-ministro britânico, antes mesmo de a cimeira arrancar, ao princípio da noite. O chefe do governo britânico insistiu até ao último minuto no nome do seu antecessor, Tony Blair, para presidente do Conselho Europeu, apesar de saber que, entre os Vinte e Sete, só a Itália e a Irlanda o apoiariam.
Mas, durante um encontro entre os líderes socialistas (oito, incluindo José Sócrates, que não chegou a tempo) imediatamente antes da cimeira, Brown mudou de táctica e avançou com o nome da comissária britânica.
Os socialistas, que exigiam a atribuição do cargo de Alto Representante a um membro da sua família política, não tiveram alternativa senão aceitar a sugestão de Brown. Sobretudo depois de David Miliband, ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, ter recusado o cargo que lhe foi oferecido de bandeja tanto pelos socialistas como pela generalidade dos Estados-membros.
Peter Mandelson, ministro britânico do Comércio, que chegou a ser avançado por Londres, foi recusado pelos socialistas. Outra possibilidade que chegou a ser discutida, o ex-primeiro-ministro italiano Massimo D’Alema, viu as suas hipóteses encolherem devido ao desconforto expresso por alguns países de Leste face ao seu passado comunista.
O nome de Ashton foi apresentado formalmente pelos socialistas antes do início da cimeira a Fredrik Reinfeldt, primeiro-ministro da Suécia que preside actualmente à UE, que o testou rapidamente em encontros bilaterais com vários líderes, sobretudo da França, Alemanha e Itália.
“Em apenas uma hora e meia demos o último passo para a implementação do Tratado de Lisboa”, afirmou o primeiro-ministro português, José Sócrates, sublinhando o “reconhecido mérito” dos escolhidos.

