Vaga de detenções de reformistas segue-se a um domingo mortífero em Teerão

29.12.2009 - 08:23 Por Maria João Guimarães
As autoridades iranianas levaram ontem a cabo uma vaga de detenções e mais repressão de protestos na sequência da violência de domingo, quando morreram várias pessoas em confrontos entre manifestantes e forças de segurança e milícias leais ao Governo.
Ontem foram detidos pelo menos sete reformistas, incluindo um antigo ministro - Ebrahim Yazdi, líder do Movimento de Liberdade do Irão, o mais antigo partido político do país - e o mais próximo conselheiro do líder da oposição, Mir-Hossein Mousavi, derrotado nas presidenciais de Junho.
Forças de segurança dispersaram uma pequena multidão que se concentrava em frente ao hospital onde estava o corpo do sobrinho de Mousavi, morto na véspera. No domingo, terão morrido oito pessoas, segundo fontes oficiais, ou 15, segundo outros relatos, o que fez do dia o mais violento após a repressão das manifestações logo após as eleições presidenciais de Junho.
Havia entretanto um fervilhar de rumores sobre a morte de Ali Habib-Mousavi, 35 anos. A família começou por se queixar de que o corpo teria desaparecido. A agência noticiosa oficial IRNA disse que tinha sido levado para exames forenses. Há ainda quem afirme que Habib-Mousavi foi primeiro atropelado por um carro e depois atingido a tiro, o que levantou suspeitas de que teria sido vítima de um crime premeditado.
Também há quem suspeite de que o atraso na entrega do corpo tenha como objectivo evitar mais concentrações que dêem margem para protestos, e havia relatos de que as autoridades proibiram a família de fazer um funeral.
Há notícia de que cerca de metade dos comerciantes do bazar de Teerão estiveram ontem fechados: os comerciantes tiveram um papel importante na queda do regime do Xá, financiando a revolução de 1979.
Crise sem fim
Parece cada vez mais difícil que se chegue a um compromisso, sublinhou ao PÚBLICO, por telefone, o analista do Centro de Estudos Estratégicos de Amã Mahjoob Zweiri, evocando "uma crise sem fim". A oposição começou por se manifestar contra a reeleição do Presidente Mahmoud Ahmadinejad, que consideram fraudulenta, em Junho, para passar a criticar o Supremo Líder, ayatollah Khamenei, que apoiou o Presidente, e há cada vez mais manifestantes que põem em causa o apoio à República Islâmica.
O regime respondeu às primeiras manifestações com uma repressão em força, detenções e julgamentos. Os protestos, ilegais, têm seguido o curso das comemorações políticas e religiosas, quando a oposição consegue pôr gente na rua. A violenta repressão e o uso de força letal no domingo, quando se comemorava a Ashura, um dos mais santos feriados para os xiitas, provocou grande indignação.
Golpe dos militares?
"Não vejo qualquer esforço de nenhuma das partes para um compromisso, ambos insistem e esperam que o outro ceda. Só se podem prever mais confrontos", disse Zweiri, co-autor do livro Iran and the Rise of its Neoconservatives. "Pode haver períodos de acalmia quando não houver ocasiões político-religiosas, mas a contestação não vai parar."
Depois desta segunda vaga de detenções de líderes reformistas, qual será o próximo passo? "Não me surpreenderia se detivessem outros reformistas, como Mousavi, ou [o outro candidato derrotado, Mehdi] Karroubi", afirma o analista. (Karroubi foi ontem atacado à saída de uma mesquita, mas não ficou ferido.) O Financial Times faz a mesma previsão de mais detenções, falando de Mousavi e do antigo Presidente reformista Mohammad Khatami. Zweiri adianta que as autoridades não deram ainda este passo, porque ele terá "um enorme impacto".


