Os eleitores da Guiné-Bissau foram hoje às urnas para eleger o sucessor do Presidente Nino Vieira, assassinado a 2 de Março, numa eleição que o Presidente interino, Raimundo Pereira, e os três principais candidatos à presidência consideraram vital para a estabilidade do país.
As eleições decorreram sem incidentes mas as primeiras indicações surgidas ao longo do dia apontavam para uma fraca afluência às urnas, em particular na capital, Bissau.
As urnas encerraram às 17 horas (18 horas em Lisboa) e a contagem dos votos deveria prolongar-se durante a noite, refere a AFP. Durante a manhã, a participação era baixa em mesas de voto visitadas por esta agência. “É domingo e as pessoas vão à igreja primeiro”, disse o presidente de uma mesa de voto em Bissau.
A missão de observadores da União Europeia disse que a participação foi inferior aos 82 por cento registados nas eleições legislativas de 2008, disse Johan Van Hecke, sem precisar um número.
"A chuva foi uma das causas, mas não houve apenas um factor", acrescentou Hecke, citado pela AFP.
O responsável pela missão de 21 observadores disse que, de um modo geral, o escrutínio decorreu de forma ordeira e calma. "Podemos ficar satisfeitos com esta eleição bem preparada e bem organizada, apesar da chuva. Não não foi apontado qualquer incidente, nem nos chegou qualquer queixa", acrescentou.
“Estão reunidas todas as condições para uma boa organização. Talvez haja alguma agitação a gerir no momento da contagem dos votos. Se não conseguirmos fazê-lo, a estabilidade do país estará em perigo”, avisou o presidente da Comissão Nacional de Eleições, Desejado Lima da Costa.
O correspondente da Reuters, Alberto Dabo, considera uma proeza o simples facto de as eleições terem lugar menos de quatro meses após o assassínio de Nino Vieira, numa aparente retaliação pela morte do chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, Baptista Tagmé Na Waié.
Mas sublinha que o vencedor das eleições terá de enfrentar os difíceis desafios de reformar umas forças armadas divididas, de impedir que o país se transforme num estado falhado, enfraquecido pela influência dos traficantes de droga da América Latina, que usam a Guiné-Bissau como placa giratória para o tráfico com destino à Europa.
“As eleições mostram, pelo menos, que eles defenderam a Constituição. O verdadeiro teste é o que vem a seguir”, disse Kissy Agyeman-Togobo, do think tank IHS Global Insight.
As eleições são seguidas com atenção a nível regional, depois de os golpes militares na Mauritânia, em Agosto de 2008, e na Guiné-Conacri, em Dezembro de 2008, terem representado um recuo na democratização da África ocidental.
O período anterior à eleição ficou ainda marcado pelo assassinato, por militares, a 5 de Junho, de um dos candidatos à presidência, o ex-ministro da Administração Interna Baciro Dabo e do antigo ministro da Defesa, Hélder Proença. Estes crimes levaram um outro candidato, Pedro Infanda, a retirar-se da corrida.
Os nomes de Dabo e Infanda figuram nos boletins eleitorais distribuídos hoje, ao lado dos dos 11 candidatos que continuaram na corrida.
Os três principais candidatos defenderam hoje a importância do acto eleitoral. Malam Bacai Sanhá, do PAIGC, no poder, que foi presidente interino entre 1999 e 2000, disse que “esta eleição marca uma nova etapa que permitirá à Guiné-Bissau reencontrar o seu lugar, com respeito e dignidade, na comunidade internacional”, cita a AFP.
Kumba Ialá, do Partido da Renovação Social, que foi eleito Presidente em 2000 e ocupou o cargo até 2003 e é membro da etnia mais importante no país, os balanta, prometeu introduzir “reformas profundas no aparelho de Estado” bem como “pôr termo aos assassinatos”. Ialá votou em Gabu, a 200 quilómetros da capital.
O independente Henrique Pereira Rosa, que foi Presidente interino entre 2003 e 2005, defendeu que o que está em jogo nesta eleição é permitir que a Guiné-Bissau “saia de uma crise profunda, de uma crise institucional, da sociedade e dos seus valores”.


