União Africana defende Governo de unidade nacional para o Zimbabwe

01.07.2008 - 18:56 Por PÚBLICO, Agências
A cimeira da União Africana aprovou, esta tarde, uma resolução em que apela à constituição de um Governo de unidade nacional no Zimbabwe, como forma de ultrapassar a crise política no país. Vários líderes defenderam uma condenação do regime de Robert Mugabe, reeleito em eleições considerais ilegítimas, mas a declaração final é mais prudente.
A resolução foi adoptada pelos chefes de Estado e de Governo da UA “após mais de duas horas de debate”, adiantou um responsável da organização pan-africana, que falou à AFP sob condição de anonimato.
O documento sustenta que os 53 Estados-membros da UE decidiram “encorajar Robert Mugabe e o chefe do MDC [Movimento para a Mudança Democrática, na oposição], Morgan Tsvangirai, a iniciar um diálogo com vista à promoção da paz e da estabilidade” no Zimbabwe.
Nesse sentido, os líderes africanos “apoiam o apelo à criação de um Governo de unidade nacional”, em negociações a serem mediadas pela Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), a acrescenta o texto.
Por último, a resolução pede “aos Estados e a todas as partes envolvidas que se abstenham de qualquer acção que possa ter um impacte negativo sobre o diálogo”.
Líderes africanos divididos
A declaração final da cimeira de Sharm el-Sheik, dominada quase em exclusivo pela situação no Zimbabwe, fica aquém das expectativas do Ocidente – que apostava num isolamento de Mugabe – e das declarações proferidas por alguns líderes africanos presentes no encontro.
Pouco antes do final da cimeira, o vice-presidente do Botswana defendeu que “os representantes do actual Governo do Zimbabwe, deveriam ser excluídos das reuniões da UA e da SADC”. Segundo Mompati Merafhe, cujas declarações constam da acta do encontro, a presença de Mugabe nestes encontros “daria uma legitimidade inaceitável a um processo [eleitoral] que não pode ser considerado legítimo”.
Esta proposta tinha sido apresentada já ontem pelo primeiro-ministro queniano, Raila Odinga, ele próprio um antigo líder da oposição, que aceitou integrar um governo de unidade nacional como forma de resolver a crise que se seguiu à reeleição do Presidente Mwai Kibaki, no início deste ano.
Segundo fontes presentes no encontro, que decorreu à porta fechada, também os Presidentes do Senegal e Nigéria criticaram duramente Robert Mugabe, considerando que a segunda volta das presidenciais não pode ser considerada legítima face à ausência da oposição, que se afastou da corrida alegando faltas de condições de segurança.
Contudo, uma condenação aberta do regime de Harare foi bloqueada por vários países vizinhos do Zimbabwe, entre eles a África do Sul, cujo Presidente foi mandatado pela SADC para mediar a crise que se vive no país.
Governo pouco provável
Apesar da pressão da UA, prevêem-se difíceis quaisquer negociações que venham a ser encetadas entre o Governo de Harare e o MDC.
Robert Mugabe, que aos 84 anos iniciou um novo mandato, mostrou-se disponível para negociar com a oposição, mas durante a campanha eleitoral disse por várias vezes que jamais permitiria à oposição chegar ao poder.
Por seu lado, o secretário-geral do MDC reafirmou hoje que a forma como decorreu a segunda volta das presidenciais “exterminou, total e completamente, quaisquer perspectivas de uma solução negociada”.
Entretanto, a presidência francesa UE já veio a público dizer que a Europa "não aceitará" um Governo de unidade nacional que não seja dirigido por Morgan Tsvangirai. Embora a resolução hoje aprovada nada diga a esse respeito, fontes diplomáticas que participaram na cimeira dizem que esse é o entendimento dos líderes africanos.


