Uma longa noite para decidir novos cargos da União Europeia

19.11.2009 - 11:12 Por Isabel Arriaga e Cunha
As esperanças de uma decisão rápida dos líderes da União Europeia (UE), hoje à noite, sobre o preenchimento dos dois novos cargos criados pelo Tratado de Lisboa esfumaram-se devido à acumulação dos candidatos e confusão generalizada em que o debate mergulhou.
Várias semanas de intensa especulação e negociações entre os Vinte e Sete sobre quem deverá ser o primeiro presidente permanente do Conselho Europeu (as cimeiras de líderes da UE) e o alto representante para a Política Externa em versão reforçada, não permitiram, por agora, a emergência de nenhum candidato capaz de obter um apoio unânime. De tal forma que Fredrik Reinfeldt, primeiro-ministro da Suécia que preside actualmente à UE, não exclui que as negociações dos líderes, que arrancam às 18h00 no quadro de uma cimeira extraordinária, se prolonguem pela noite fora.
"Será que teremos as novas caras da Europa na quinta-feira à noite? Francamente, não sei. A questão tanto pode ser resolvida em poucas horas, como poderá precisar de toda a noite", reconheceu ontem Reinfeldt.
Tudo quanto se sabe é que o presidente do Conselho, a eleger por um mandato de dois anos e meio renovável, pertencerá ao centro-direita e será um primeiro-ministro em funções ou um "ex", enquanto o alto representante será socialista.
Também parece certo que Reinfeldt falhará o objectivo de abrir a cimeira com a proposta de um único nome para cada um dos cargos: na segunda-feira, a presidência contava com mais de vinte candidatos para ambos. E, apesar dos esforços de Estocolmo, o impasse permanecia ontem total.
A dificuldade do exercício é que, além da partilha dos postos entre a esquerda e a direita, os escolhidos terão de garantir um equilíbrio em termos geográficos, entre grandes e pequenos estados e, devido à vaga de fundo feminista dos últimos dias, entre homens e mulheres.
Reinfeldt está, aliás, sob um fogo de críticas pela falta de firmeza com que tem conduzido a questão: o método de consulta aberta a cada um dos seus homólogos através de "uma, duas, três" rondas de telefonemas, não só não reduziu a lista de candidatos, como a inchou.
Londres baralha cálculos
No início do mês, o cenário mais consensual assentava na escolha de Herman Van Rompuy, primeiro-ministro belga, para presidente, e de David Miliband, chefe da diplomacia britânica, para alto representante. O Reino Unido torpedeou desde então este cenário, vetando implicitamente Miliband e insistindo no ex-primeiro-ministro Tony Blair para presidente.
Van Rompuy continua a ser o favorito - incluindo em Portugal, França e Alemanha - mas os seus homólogos do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, e da Holanda, Jan Peter Balkenende, ainda estão na corrida. A Letónia avançou a candidatura da sua ex-Presidente, Vaira Vike Freiberga, que, segundo um embaixador europeu, tem feito uma pressão gigantesca sobre os restantes governos, enquanto a Estónia propôs o seu Presidente, Toomas Hendrik Ilves.
Os concorrentes para alto representante são menos claros. Com a retirada de Miliband, cresceram as possibilidades de Massimo D"Alema, ex-líder do partido comunista italiano que já foi primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros.
A Espanha empurrou terça-feira a candidatura do seu chefe da diplomacia, Miguel Ángel Moratinos, que não parece ter grandes hipóteses pelo facto de o presidente da Comissão Europeia - Durão Barroso - ser português.
O debate complica-se um pouco mais pelo facto de, em paralelo com este processo, decorrer uma corrida sem quartel dos Vinte e Sete, sobretudo dos estados mais populosos, aos pelouros de maior peso económico da futura Comissão Europeia - que Durão Barroso terá de distribuir até ao fim do mês - e que poderão ser exigidos para compensar alguns dos preteridos de hoje.
O mesmo acontece com o Banco Central Europeu (BCE), para cuja vice-presidência, em 2010, Lisboa candidatou o governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, e que a Alemanha quer liderar a partir de 2011.


