Stevie Wonder, Brooke Shields, Magic Johnson, Smokey Robinson, todos os outros Jacksons e milhares de fãs em lágrimas prestaram ontem a última homenagem ao génio de Michael Jackson, o Rei da Pop, que morreu aos 50 anos. Numa grande cerimónia pública no Staples Center, em Los Angeles, que foi ao mesmo tempo um serviço religioso, um espectáculo multimédia e um festival de canções, a memória de Jackson foi evocada, os seus contributos musicais reconhecidos, o seu impacto mundial festejado, o seu corpo velado, a sua morte chorada.
Os milhares de fãs que acorreram à Baixa de Los Angeles levaram a peito o tema de showneral anunciado desde a véspera: vestidos de luto, os que privilegiavam um sóbrio tributo, ou, os que mais investiram na vertente do show, imitando o ídolo, com óculos espelhados e casacos de couro vermelho.
Laurie e Deborah, duas amigas de Orange County, estavam elegantemente vestidas de preto da cabeça aos pés. "Foi o que pareceu mais apropriado", justificava Laurie. "Isto é um memorial, não é um circo. É a despedida de um homem que foi um génio musical, que tocou e comoveu milhões de pessoas pelo mundo fora", acrescentava. "A morte dele ainda nos parece surreal, é como se não tivesse acontecido. Esta cerimónia é uma oportunidade de dizermos adeus a uma pessoa que foi tão importante nas nossas vidas", completava a amiga.
Foi para dizer obrigado e adeus que Latasha Dobson viajou de Boston, no Massachusetts. "Não me importam as celebridades. Vim prestar a minha homenagem. Já vimos na televisão o amor que o resto do mundo sentia por Michael, hoje é a nossa vez. Tinha de estar aqui, com os que sentem o mesmo que eu", explicava. Quando recebeu a notícia da morte de Michael Jackson, recordou, "o dia parou, o tempo congelou". "Tinha chovido durante dez dias e foi o primeiro dia de sol. Fui com o meu filho para o parque e alguém me contou. Corri para casa, o choque foi tão grande que tive de ir ver", disse. "É por isso que estou aqui, porque tenho de vê-lo".
Contenção na assistência
E viu - o caixão coberto de flores vermelhas; a sua fotografia projectada, uma e outra vez no ecrã gigante do Staples Center. Foram os irmãos de Michael, envergando gravatas amarelas, óculos escuros e todos com a mítica luva de brilhantes que ele celebrizou, que carregaram o caixão para a frente de palco, enquanto um coro gospel cantava "Aleluia, vamos ver o rei". A assistência reagiu com contenção, mas mais tarde não resistiu a explodir, em aplausos e gritos... "Michael, we love you!".
No início do espectáculo, Mariah Carey interpretou I'll be there; Queen Latifah leu um poema de Maya Angelou intitulado We had him; o fundador da Motown, Berry Gordy, recordou o "choque e magia" que todos sentiram quando Michael apresentou o seu moonwalk. "Ele entrou em órbita e nunca mais voltou", disse. "Chamar-lhe Rei da Pop não chega. Michael Jackson foi simplesmente o maior entertainer de todos os tempos", considerou, levantando o pavilhão num emocionado aplauso.
O basquetebolista Kobe Bryant, os dois filhos de Martin Luther King e a congressista Sheila Jackson Lee lembraram as portas que Michael abriu para a comunidade afro-americana - e é inegável que o momento da morte foi, também, o da reconciliação do público negro com o seu ídolo. A porta da Motown, em Detroit, encheu-se de flores, as ruas do bairro do Harlem, em Nova Iorque, pararam para assistir à transmissão do memorial - emitido em directo em centenas de salas de cinema nos EUA e por televisões de todo o mundo.
"Quando Michael começou, o mundo era outro. Depois ele calçou aquela luva branca, e abriu as cortinas para todos: brancos, pretos, latinos, asiáticos, todos cantaram We Are the World, sublinhou o reverendo Al Sharpton. "As crianças que viram Thriller já não estranharam os programas de Oprah Winfrey, acharam normal ver Tiger Woods levantar uma taça, correram a votar no primeiro afro-americano que se tornou Presidente dos EUA."
Pandemónio nas ruas



