Os líderes religiosos coincidem: o resultado do referendo suíço representa "um duro golpe contra a liberdade religiosa" e mina a convivência social. O arcebispo Antonio Maria Sveglio, presidente do Conselho Pontifício para os Migrantes, confirmou que o Vaticano pensa o mesmo que os bispos suíços.
"Não vejo como se pode travar a liberdade religiosa de uma minoria ou impedir um grupo de pessoas de ter a sua igreja", afirmou Sveglio, citado pela AFP. "Há um sentimento de aversão e medo, mas um cristão deve saber ultrapassar isso, mesmo se não tem reciprocidade", acrescentou, numa referência às perseguições a cristãos em alguns países islâmicos.
Os bispos católicos suíços manifestaram-se logo depois do desfecho do referendo que apanhou toda a gente de surpresa. Foi o secretário-geral da Conferência Episcopal Suíça (CES), Felix Gmür, que definiu o resultado como "um duro golpe contra a liberdade religiosa e a integração".
Num comunicado posterior, o porta-voz da CES, Walter Müller, escreveu que a decisão de domingo "representa um obstáculo e um grande desafio no caminho da integração no diálogo e no respeito mútuo".
O porta-voz faz mea culpa: "Não conseguimos mostrar ao povo que a interdição da construção de minaretes não contribui para a sã convivência de religiões e culturas e, pelo contrário, deteriora-a". Na Suíça, há três milhões de católicos e 2,7 milhões de protestantes. Cristãos ortodoxos e judeus são pequenas minorias. Os muçulmanos são cerca de 400 mil, numa população de 7,5 milhões.
A decisão "aumenta os problemas" e nem sequer "servirá aos cristãos oprimidos e perseguidos em países islâmicos", acrescentava Müller.
A Federação das Igrejas Protestantes da Suíça (FEPS) reagiu também no próprio domingo, repetindo: a decisão não resolve o problema, cria novas tensões e mina a coesão social. E, não sendo um "combate entre culturas", configura "um atentado às liberdades fundamentais".
Ishamel Noko, secretário-geral da Federação Luterana Mundial, que representa 69 milhões de protestantes, disse que a decisão traduz uma atitude "sectária" para com os muçulmanos, segundo a agência do Conselho Mundial de Igrejas. O Conselho Suíço das Religiões - cristãos, judeus e muçulmanos - deplorou o resultado.
Em Lisboa, o responsável pelo Departamento para o Diálogo Inter-Religioso do Patriarcado, padre Peter Stilwell, disse ao PÚBLICO que a decisão não tem a ver com relações entre credos, mas com imigração e multiculturalidade. "A mentalidade conservadora identifica a igreja como parte da paisagem e não entende que a paisagem humana mudou", diz.
"É um aviso sério e preocupante, que põe em causa os princípios da liberdade religiosa". Stilwell recorda a semelhança com o facto de, antes de 1910, templos não católicos não poderem estar voltados para a rua - a Sinagoga de Lisboa é exemplo. E as igrejas protestantes não podiam ter sinos.



