O Departamento de Estado norte-americano monitorizou todas as reacções ao discurso do Presidente Barack Obama aos muçulmanos do mundo, na Universidade do Cairo, e concluiu que a iniciativa do Presidente não podia ter sido mais oportuna e mais bem sucedida. “As políticas estão em curso, mas o discurso permitiu clarificar as intenções e objectivos dos Estados Unidos e portanto construir mais confiança e adesão popular. A resposta que tivemos foi impressionante”, comentou Vali Nasr, conselheiro do enviado especial para o Afeganistão e Paquistão.
Acabado de chegar do Cairo, o vice-secretário de Estado para os assuntos do Médio Oriente, Jeffrey Feltman, salientou a “atmosfera muito positiva” que transpirou na sala no final da intervenção de quase uma hora de Barack Obama. “Era uma audiência muito diversa, que reagiu de forma emocionada, sobretudo quando o Presidente se focou nas ideias do respeito e honestidade entre os povos, nos direitos e responsabilidades dos países, na rejeição da violência e no compromisso com a paz”, contou.
Num balanço feito ontem pelos responsáveis pelas diversas regiões do mundo onde se concentram as comunidades islâmicas, a satisfação era evidente, com os diplomatas a concordarem que os Estados Unidos beneficiarão, a partir de agora, de um maior espaço de manobra graças à reacção positiva às palavras de Obama.
O embaixador Johnnie Carson, do gabinete de assuntos africanos, salientou o interesse que o discurso suscitou na região subsaariana, onde um terço da população é de religião muçulmana. “Temas como a promoção dos direitos das mulheres, da oportunidade económica, do respeito pela democracia e combate ao extremismo foram muito aplaudidos”, destacou.
Na Ásia Central a reacção foi discreta, mas em países como o Bangladesh, o Sri Lanka e a Índia, as televisões passaram o discurso em directo e a reacção foi muito entusiástica, revelou o vice-secretário Patrick Moon. Na Indonésia, os elogios foram rematados com um lamento: “Que pena que não tenha sido aqui”.
“Foi sem dúvida histórico, e foi um discurso extraordinário”, comentou ao PÚBLICO Stephen Schneck, professor do departamento de Política da Universidade Católica Americana e especialista em política e religião. “Ainda é demasiado cedo para avaliar o seu impacto, mas acredito que as suas palavras continuarão a ressoar no mundo muçulmano por muito tempo. Penso que ele conseguiu transmitir, de forma muito poderosa e simbólica, uma nova relação [dos Estados Unidos com o Islão], e penso que as coisas que ele disse podem levar a mudanças efectivas nas políticas”, declarou.
“Um autêntico blockbuster”, concorda Solon Simmons, professor do Instituto de Análise e Resolução de Conflitos da George Mason University. “Obama foi capaz de falar com respeito aos muçulmanos em geral, e aos árabes em particular, e a reacção da plateia foi uma excelente indicação, com gritos de Obama, Obama no final. Esta questão do respeito é fundamental e é um grande desafio, porque a esfera pública árabe pode ser muito sofisticada, mas também muito cínica, especialmente no que diz respeito à retórica americana”, observa.
Também David Pollock, analista do “Washington Institute for Near East Policy”, contactado pelo PÚBLICO, avaliou positivamente a iniciativa do Presidente americano. “Foi um bom discurso, eloquente, com um bom tom e uma boa escolha de palavras. Cobriu muitos assuntos, o que foi muito positivo, porque não evitou questões difíceis mas sem se concentrar demasiado em detalhes que caem no âmbito das negociações [entre os países]”, referiu.
O rabi Brad Hirschfield, presidente do National Jewish Center for Learning and Leadership, considerou o discurso do Presidente Barack Obama “brilhante”, mesmo se pontuado por inúmera referências que notou serem “muito problemáticas para os apoiantes de Israel”. “Mas este não era um discurso destinado a agradar aos judeus; era um discurso para o mundo muçulmano, e nesse sentido, foi um tremendo exemplo de como se pode ‘tocar alguém’, para usar um conceito bíblico. Obama não podia ter sido melhor e mais eficaz”, disse num fórum promovido pelo “The Washington Post”.



