A fotografia de Ben Ali aparece por todo o lado. Nos cafés e nos restaurantes, nas ruas, na primeira página dos jornais. Diariamente e com títulos em absoluto: "A Nação apoia o projecto vanguardista de Ben Ali", dizia o "La Press" de 20 de Outubro. Enormesposters do Presidente e um mar de bandeiras à entrada das empresas estatais. O Estado e a União Democrática Constitucional de Ben Ali são facilmente confundíveis.
O Presidente está sempre na mesma pose, sorrindo de pé com um fato escuro e a mão direita suavemente apoiada sobre o coração. Uma saudação local? Não exclusivamente. "Está a dizer que nos tem no bolso", ironiza Ibrahim, taxista em Tunes. Tem quatro filhos e diz que a sua prioridade é poder trabalhar. "Esta eleição não mudará nada, porque a existência de oposição é uma questão cosmética".
Ninguém espera surpresas e todos sabem que le boss será o vencedor das eleições de hoje. A lista de reais candidatos de oposição emagreceu a olhos vistos, e as emendas constitucionais têm dificultado ainda mais a emergência de pluralidade. O actual sistema garante ao partido vencedor 75 por cento dos assentos do Parlamento, distribuindo os restantes pelos outros partidos. Seis dos nove partidos são apoiantes confessos do regime.
Para a verdadeira oposição, a vida não tem sido fácil. Em 2008, o Governo alterou a lei eleitoral, passando a ser obrigatório aos candidatos à presidência liderarem um partido reconhecido pelo menos durante dois anos antes de se apresentarem a eleições.
A mudança tornou várias candidaturas de activistas e reconhecidos opositores ao Governo legalmente impraticáveis.
Ahmed Ibrahi, do Partido Ettajdid (Renovação), é o único dos candidatos ainda na corrida a criticar abertamente o regime, tendo exigido um sistema eleitoral mais transparente. Ibrahim acusou as autoridades de confiscarem o jornal do seu partido em que apresentava o manifesto político e os cartazes de campanha com a sua fotografia. O candidato também alegou ter sido impedido de realizar reuniões de coordenação da campanha.
É fácil passar despercebido com vizinhos como a Argélia e como a Líbia. Desde a independência, em 1956, a Tunísia tem seguido um caminho invulgar na região. Sem recursos petrolíferos, o país adoptou uma estratégia de desenvolvimento de produção própria. Hoje, a economia vive da indústria e do sector dos serviços, especialmente o turismo, galvanizados pela aproximação política e económica à União Europeia. Mesmo com a recessão mundial, a economia cresceu três por cento no último ano.
Imagem e falta de pluralismo
Os títulos de reconhecimento internacional abundam. A Tunísia foi considerado o país mais pacífico de África pelo Global Peace Index. Foi também distinguido pelo Fórum Económico Mundial em Davos como o país mais competitivo em África.
O outro lado da estabilidade política e económica é, segundo os críticos, o autoritarismo de um Estado policial que reprime os opositores e afoga a expressão de ideias contrárias. O Youtube e vários blogues que criticam o Governo são inacessíveis aos utilizadores tunisinos.
Num comunicado, Jean-Francois Julliard, secretário-geral da organização Repórteres Sem Fronteiras, criticou a falta de pluralidade nos media: "As opiniões desfavoráveis ao chefe de Estado estão em grande parte ausentes". Na terça-feira, a jornalista do "Le Monde" Florence Beauge foi impedida de entrar no país por ser considerada hostil ao regime.
Foi um golpe legal que levou Ben Ali ao poder em 1987. Cinco semanas após ter sido nomeado primeiro-ministro por Habib Bourguiba, Presidente desde a independência, Ben Ali declarou Bourguiba incompetente, ascendendo assim ao cargo a 7 de Novembro.
Emendas constitucionais em 1988, 1998 e 2002 permitiram a Ben Ali não só anular o limite de mandatos como aumentar a idade máxima dos candidatos, de 70 para 75 anos. O líder que aboliu as presidências vitalícias e legalizou a existência de partidos quando chegou ao posto, leva 22 anos no poder e candidata-se hoje ao quinto mandato consecutivo.
Publicado na edição impressa


