Ao início da madrugada, a oposição agitava bandeiras na Praça Verde de Trípoli, onde uma multidão disparava para o ar e gritava “Deus é grande”, celebrando a chegada dos rebeldes ao centro da capital.
Era o culminar de um dia alucinante, menos de 24 horas depois de os rebeldes terem lançado os primeiros ataques no interior da cidade, chegavam à praça que até agora era o local habitual de reunião dos partidários de Muammar Khadafi.
No fim, Khadafi continuou desligado da realidade do país que governou por quase 42 anos. Já os habitantes da capital festejavam a sua queda, arrancando cartazes com o seu rosto, e o coronel divulgava uma mensagem áudio, apelando ao seu povo para “salvar Trípoli” da ofensiva da oposição. “É a obrigação de todos os líbios. É uma questão de vida e de morte.”
Era a terceira mensagem do ditador em apenas 24 horas, o dia em que os combatentes que a 17 de Fevereiro se revoltaram contra o regime a partir de Bengazi, no Leste do país, entraram por fim na capital.
A revolta, inspirada nas revoluções tunisina e egípcia, que tão depressa se transformou em guerra civil sangrenta, acabou por acelerar de uma forma que provavelmente nem os seus líderes tinham antecipado.
Segundo os rebeldes, a oposição controlava a totalidade de Trípoli, com excepção de Bab al-Aziziyah, a zona do grande complexo de Khadafi, onde tantas vezes ele apareceu para falar aos líbios nos primeiros meses da guerra e onde se pensa que terá passado grande parte do conflito.
Se Khadafi ali estava ou não é uma pergunta para o qual poucos saberiam a resposta. Rumores a correr pela Líbia houve muitos. Os jornalistas do "Independent" ouviram que já tinha deixado o país; outros que estaria em Sirte, a sua terra natal, ou numa base militar, ainda mais a Sul. “Estou convosco em Trípoli – juntos até ao fim da Terra”, garantiu o próprio, na segunda mensagem áudio do dia, já era noite em Trípoli.
Quando Khadafi voltou a falar aos líbios, o Conselho Nacional de Transição, o órgão políticos da rebelião, reconhecido como única autoridade líbia por três dezenas de países, já tinha anunciado a rendição da sua guarda presidencial e do seu filho mais velho, Mohammed, e a captura de outro dos seus filhos, Seif al-Islam, que nos últimos seis meses se tornara no principal rosto do regime, desdobrando-se em entrevistas e aparições públicas.
Para alguns, a captura de Seif, confirmada pelo Tribunal Penal Internacional, vale mais do que saber onde se encontra o próprio Khadafi. A revolução já não pode apagar as últimas quatro décadas, mas pode abrir caminho a um futuro diferente, um futuro livre de Seif. Talvez por isso o anúncio da sua captura tenha sido feito pelo próprio Mustafa Abdel Jalil, o chefe do Conselho Nacional de Transição, que a confirmar-se a queda do coronel, será o novo líder dos líbios até à realização de eleições.


