Não houve arrependimentos, nem desculpas. Ouvido esta sexta-feira na comissão de inquérito à guerra do Iraque, Tony Blair negou ter arrastado o país para o conflito com base em falsos argumentos ou para agradar aos americanos. Em tom assertivo – por vezes quase de desafio – disse que a percepção do seu Governo sobre a ameaça que Saddam Hussein representava “mudou radicalmente” após o 11 de Setembro. Insistiu também que até à invasão acreditava “sem margem para dúvidas” que o Iraque tinha armas químicas e biológicas e enquanto primeiro-ministro não podia “assumir o risco” de não fazer nada.
Era grande a expectativa para ouvir Blair explicar as contradições surgidas nas últimas semanas de audições, tanto sobre a legalidade do conflito como sobre as suspeitas de que as informações recolhidas pelas secretas foram “apimentadas” para justificar a guerra. Mas o ex-primeiro-ministro não cedeu um milímetro e mostrou ter poucas dúvidas de que fez o correcto, mesmo que nem tudo tenha corrido como planeado. “Saddam era um monstro e acredito que ele representava uma ameaça não apenas para a região, mas para o mundo”, afirmou no final das seis horas de audição.
Disse, além disso, que o mundo seria mais perigoso, se Saddam não tivesse sido derrubado em 2003. “Com o barril de petróleo não a 25 mas a 100 dólares, ele teria tido a vontade e os meios financeiros [para reconstruir o arsenal] e nós teríamos perdido a coragem”, explicou Blair, ainda o dia de audições ia a meio. E hoje “o Iraque estaria a competir com o Irão”, tanto na corrida ao nuclear “como no apoio aos grupos terroristas”.
Não houve pacto secreto
Blair – que de manhã evitou as centenas de manifestantes que o esperavam à porta, entrando mais cedo e por um portão traseiro do centro de conferências – começou por negar que tenha feito um “pacto secreto” com George W. Bush, quando visitou o seu rancho no Texas, na Primavera de 2002. A suspeita foi lançada pelo ex-embaixador em Washington Christopher Meyer, que disse ter sido acordado nessa cimeira o derrube de Saddam Hussein. As armas de destruição maciça, garantiu o diplomata, foram justificação encontrada pelos dois países para justificar a invasão.
“O que eu lhe disse – em público e não em privado – foi que estaria com ele a confrontar a ameaça que Saddam representava.” A forma como isso seria feito, afirmou Blair, “ficou em aberto”.
Londres pretendia o apoio do Conselho de Segurança da ONU para desarmar o Iraque, mas se a via diplomática falhasse e “fosse necessário recorrer à acção militar, [Londres estaria] ao seu lado”. “Não queria que a América sentisse não ter outra opção que não a de avançar sozinha.”
Semanas após a invasão, os militares concluíram que o ditador iraquiano não escondia qualquer arma química ou biológica. Mas, ignorando as reticências já reveladas por antigos responsáveis das secretas, Blair insistiu hoje que todas as informações disponíveis até Março de 2003 indicavam o contrário: “Teriam sido precisas provas muito fortes para pôr em causa esse facto.”
E se até aos atentados de 11 de Setembro a estratégia britânica era a da “contenção”, a partir daí o país não podia “arriscar” que os terroristas se apoderassem dos arsenais dos Estados párias”: “Irão, Líbia, Coreia do Norte. Tudo isto tinha que acabar.”
A comissão de inquérito quis então saber por que foi escolhido o Iraque se, como o próprio Blair admitiu, Londres nunca acreditou que Bagdad tivesse ligações à Al-Qaeda. Ao contrário de outros, respondeu Blair, Saddam já tinha usado armas químicas contra civis e “há mais de dez anos que violava as resoluções” que exigiam o seu desarmamento.
Legalidade duvidosa
Nervoso ao entrar na sala – os jornalistas notaram que as mãos lhe tremiam quando abriu a garrafa de água colocada na mesa –, Blair recuperou rapidamente a confiança e, por vezes, pareceu conduzir a sessão. Goravam-se, assim, as expectativas dos que esperavam ver o ex-primeiro-ministro “em julgamento”.
Esteve menos seguro quando o painel o questionou sobre as bases legais da invasão. Em sua opinião, a Resolução 1441, aprovada em Novembro de 2002, “era suficiente” para dar cobertura às acções militares, ainda que fosse “preferível do ponto de vista político” chegar a um novo consenso na ONU.



