Timor-Leste: O dia em que descobri como é bom chorar de alegria

30.08.2009 - 07:00 Por Luciano Alvarez
Há dez anos, chorei pela primeira vez de alegria. Não chorei uma vez. Foram várias. Tantas que logo nesse dia lhes perdi a conta.
Já tinha chorado muitas vezes nos quatro meses que levava em Timor-Leste. Mas nunca de alegria. Chorei por ver a morte, por ver a opressão, por revolta. Muitas vezes não consegui segurar as lágrimas quando escrevia, sozinho, num quarto de hotel, relatos de mulheres violadas, de mães a quem mataram os filhos jovens porque queriam ser livres. Chorei às escondidas por não poder fazer nada além de ouvir e contar os relatos de ambas as partes.
Naquela manhã, não. Naquele dia 30 Agosto de 1999, foi a alegria que me tomou. Chorei até quase me faltar o ar ao ver as filas imensas de timorenses frente aos locais de voto logo aos primeiros raios de sol. Fiquei logo com a certeza que a liberdade ia ganhar.
Desta vez não me escondi. Chorei compulsivamente à frente de todos os que estavam naquele beco de Díli. Sem um pingo de vergonha. Eles tinham vencido o medo, mesmo depois de meses de violência e ameaças para que ficassem em casa e só os favoráveis ao “não” fossem votar. Eles tinham vencido o medo, mesmo tendo como garante de segurança os mesmos soldados que lhes mataram os familiares ao longo de um quarto de século.
“É tempo de pedir a todos para não terem medo. Irmãos e irmãs, muita gente está com medo neste momento. Não tenham medo, sejam corajosos e escolham o futuro que querem para Timor. Esta geração vai fazer história e o povo de todo o mundo vai falar de nós. Vai falar do povo guerreiro e do seu corajoso coração”, pediu, na véspera, Ximenes Belo, o então bispo de Díli. E eles, mais uma vez, não tiveram medo.
Oficialmente, 78,5 por cento dos cerca de 400 mil inscritos que foram votar (mais de 90 por cento dos eleitores) não tiveram medo e disseram “sim”. Não oficialmente, terão sido mais os que votaram pela independência. Há muito que em Timor pessoas com responsabilidades políticas dizem à boca pequena que as Nações Unidas reduziram a percentagem da vitória para não humilhar muito a Indonésia. O último a afirmá-lo publicamente foi Mari Alkatiri, líder da Fretilin e ex-primeiro-ministro. “Soubemos que tinha havido uma negociação no sentido de reduzir a vantagem do voto pela independência, de 90 por cento para 70 e tal, para não humilhar demasiado a Indonésia”, disse Alkatiri esta semana à Lusa.
Do centro de Díli, ainda a limpar as primeiras lágrimas, parti para a pista de aviação onde estavam instalados os meios aéreos das Nações Unidas. O PÚBLICO tinha sido um dos poucos meios de comunicação convidados para acompanhar Jamesheed Marker, representante do secretário-geral da ONU numa visita a várias cidades. Marker queria ver com os seus próprios olhos como estava decorrer a votação fora da capital. A primeira paragem do helicóptero branco foi Manatuto, a leste de Díli. Também ali as filas eram imensas. Quase não havia um metro de terra onde não estivesse hasteada uma bandeira vermelha e branca, o que dava um ar festivo à cidade. Mas elas eram o sinal de que estava tomada pelas milícias pró-Indonésia. Mas, também ali, o medo havia sido vencido. “É impressionante, vê-se a felicidade na cara das pessoas (…). Isto é a democracia”, dizia o homem da ONU. Já em Lospalos, Marker é recebido com a informação de que “todas as pessoas” tinham votado. E assim tinha sido em Baucau e em Viqueque – uma das terras mais fustigadas pelos ataques das milícias e dos militares indonésios e onde se calcula que mais pessoas tenham sido mortas no período pré-eleitoral. E assim tinha sido nas restantes cidades visitadas. Assim tinha sido em todo o Timor. Um título do PÚBLICO no dia seguinte resumia com três palavras certeiras: “Fúria de votar”.


