Timor-Leste: número de votos em Baucau três vezes superior aos eleitores

14.04.2007 - 20:06 Por AFP, PUBLICO.PT
O escrutínio dos votos das presidenciais em Timor-Leste conheceu hoje um novo revés, depois da Comissão Nacional Eleitoral (CNE) anunciar que foram escrutinados 300 mil votos no distrito de Baucau, onde estão recenseados pouco mais de cem mil eleitores.
“Trata-se de um novo milagre: num único dia somos capazes de gerar 200 mil adultos”, ironizou o padre Martinho Gusmão, porta-voz da CNE, declarando-se incapaz de explicar esta situação “ilógica”.
Naquele distrito, onde está situada segunda maior cidade do país, “estão recenseados pouco mais de cem mil [eleitores], mas o resultado ultrapassa os 300 mil”, explicou o responsável ao admitir que não há resultados para Baucau.
O excesso de votantes é enorme tendo em conta que no país estão recenseadas pouco mais de 500 mil pessoas.
O padre Gusmão escusou-se, no entanto, a comentar se estes novos dados poderão pôr em causa a totalidade do escrutínio que, segundo os dados divulgados, apurou para a segunda volta o primeiro-ministro, José Ramos-Horta, e o candidato da Fretilin, Francisco "Lu-Olo" Guterres.
“Os comissários vão discutir em conjunto para descobrir como esta situação ilógica ocorreu em Baucau”, afirmou.
Cinco dias depois do histórico escrutínio, o primeiro desde a independência de Timor-Leste, a CNE continua incapaz de anunciar a taxa de participação nas presidenciais, havendo discrepâncias entre os números da abstenção, o total de votos apurados e os obtidos por cada um dos candidatos.
Ontem, as autoridades admitiam “irregularidades muito graves” em 59 das 113 secções de voto de Díli, havendo também “situações muito complicadas” nos distritos de Aileu, Ainaro e Bobonaro. Face a esta situação, a CNE admitia recomendar a repetição da votação nas secções em causa, mas a gravidade dos resultados em Baucau poderá levar a adopção de medidas mais drásticas.
Segundo o padre Gusmão, os resultados finais só deverão ser conhecidos segunda-feira, altura em que será entregue um relatório ao Tribunal de Recurso, dispondo os candidatos de um prazo de 24 horas para apresentar reclamações ou pedir a impugnação do escrutínio.
Quinta-feira, cinco dos oito candidatos presidenciais tinham pedido a suspensão da contagem dos votos, denunciando irregularidades e a intimidação aos seus representantes eleitorais. Ontem, foi a vez de Ramos-Horta se juntar ao protesto, tendo em conta a “gravidade das suspeitas.


