Uma estratégia “demasiado ambiciosa” e que consome recursos e energia que deveriam estar a ser usados para enfrentar outras ameaças. É este o diagnóstico feito à guerra do Afeganistão por um dos mais influentes think-tanks mundiais, que ontem defendeu uma revisão urgente da estratégia de contra-insurreição aprovada há menos de um ano.
No seu relatório anual, o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), de Londres, argumenta que a estratégia traçada em 2009 pelo general Stanley McChrystal, com o apoio do Presidente Barack Obama , “insuflou” os objectivos iniciais, quando tudo o que os aliados pretendiam era garantir que a Al-Qaeda não voltaria a usar solo afegão para atacar os países ocidentais.
Hoje, ao invés, pretende-se “modernizar o país e o Governo” e a “derrota dos taliban tornou-se sinónimo de derrota da Al-Qaeda mesmo que esta tenha transferido muitas das suas capacidades para o Paquistão”, lamenta o instituto. Trinta mil soldados foram somados aos mais de cem mil que já ali estavam, mas os resultados são escassos e, perante o aumento das baixas, a tolerância da opinião pública “está a diminuir”, reforçando a pressão para a retirada das tropas estrangeiras.
Os peritos do IISS avisam que uma retirada precipitada pode causar “uma implosão do Afeganistão” mas, numa afirmação que promete gerar polémica, contestam a ideia de que a missão é essencial para impedir o regresso do terrorismo. “Não há nada que prove que um Afeganistão sem tropas estrangeiras será um íman automático para a reconstrução da Al-Qaeda”, disse John Chipman, director do IISS.
Assim, ao invés de “se esgotar militar e psicologicamente num conflito que não serve os seus interesses”, o Ocidente deve optar por uma “estratégia de contenção”. Nesta perspectiva, o IISS recomenda que, à medida que as tropas retiram, a NATO concentre as suas forças no Norte, deixando aos taliban as regiões pashtun, actuando no Sul apenas para impedir a reorganização da Al-Qaeda. Propõe também a concessão de maior autonomia às províncias e um reforço da cooperação regional no combate ao terrorismo.
Recomendações controversas para um think-tank “habitualmente pouco controverso”, notou o Guardian. Mas os analistas justificam a ousadia com o risco de que a actual estratégia transforme o Afeganistão num “longo e penoso desastre”.



