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Aniversário do referendo que decidiu a independência de Timor

Testemunho: O padre Hilário

30.08.2009 - 07:00

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Há dez anos, integrei a missão de observadores do Governo português à consulta popular. Um verdadeiro baptismo de fogo para um jovem diplomata. Foi uma honra e um privilégio ter servido em Timor nesse tempo em que Portugal se uniu e acertou contas com a sua História.

O caminho para a independência foi construído pelo sacrifício de muitas mulheres e homens timorenses, que pagaram com a vida a conquista da Liberdade. Neste aniversário do voto pela independência, gostaria de evocar um desses homens, cujo exemplo jamais esquecerei.

Não se trata de um herói famoso, apenas de um homem discreto e extraordinário, que, com o dom de si, cumpriu o seu dever até às últimas consequências.

Em meados de Julho de 1999, desloquei-me em missão a Suai, na ponta sudoeste de Timor. O nosso objectivo era preparar a instalação de uma equipa de observadores e avaliar a situação de segurança.

À chegada a Suai, seguimos para a igreja local, em busca do padre Hilário, recomendado pelo padre Leão, de Díli. O cenário com que nos deparámos confirmou a destruição que tínhamos visto no caminho: as imediações da igreja estavam repletas de tendas e de centenas de deslocados.

A nossa chegada era esperada. Fomos calorosamente recebidos à entrada da casa do padre Hilário pelo próprio e por dezenas de pessoas, que se acercaram de nós, saudando-nos em português e beijando-nos as mãos. Alguns dos mais velhos perfilaram-se e fizeram-nos a continência.

O padre Hilário parecia estar a passar revista às tropas: todos os homens lhe faziam a saudação da resistência (com o punho erguido junto à face). As mulheres e as crianças pediam-lhe a sua bênção. Conhecia todas as famílias que estavam alojadas em tendas improvisadas nas imediações da velha Igreja e no interior das paredes da nova catedral, ainda em construção, da qual falava com indisfarçável orgulho.

Em dois dias, cumprimos a nossa missão, sempre acompanhados do padre Hilário: arrendámos casas para a equipa de observadores e obtivemos importantes informações. Aquando da data da consulta, o número de pessoas refugiadas na igreja do padre Hilário elevava-se a cerca de 3500.

Na véspera da evacuação do último grupo de elementos da missão portuguesa, depois de uma semana refugiados no perímetro da UNAMET, recebi a notícia da morte do padre Hilário. Morreu na sua igreja, junto de cerca de cem dos seus refugiados, aqueles que não conseguiram fugir, na sua maioria mulheres e crianças. Foram assassinados a tiro de metralhadora e à granada.

O padre Hilário não viveu para ver a sua nova catedral de pé, nem tão-pouco conseguiu salvar todos os refugiados que durante meses protegeu. Mas viverá para sempre no Timor independente com que sonhava, não podendo ser esquecido o seu exemplo, a sua coragem e martírio, que tanto contribuíram para a liberdade que veio a ser conquistada.

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