Tailândia deporta mais de 4000 refugiados hmongs para um destino incerto no Laos

28.12.2009 - 15:53 Por Dulce Furtado, com agências
Com um aparato militar de milhares de soldados armados com bastões e escudos anti motim, o Governo de Banguecoque lançou ontem uma vasta operação de expulsão do território tailandês de mais de quatro mil membros da minoria étnica hmong em direcção ao Laos. Muitos podem ser recebidos como “inimigos do regime” e de nada valeu a enorme vaga de condenação da comunidade internacional.
O arranque da operação foi dado às 5h30 locais (21h30 da noite de domingo em Portugal) com os primeiros oito de uma centena de camiões a recolherem os refugiados do campo de Huay Nam Khao, na província de Phetchabun, a uns 300 quilómetros a norte da capital tailandesa, e a levá-los para lá da fronteira com o Laos. As autoridades relatam que tudo decorreu de forma pacífica, mas um grupo local de defesa dos direitos humanos sustenta que mais de uma centena de hmongs tentaram opor-se à expulsão.
“No total, 4.371 hmongs deixaram o campo. A operação terminou ao final da tarde”, informou o coordenador do centro de repatriamento, coronel Thana Charuvat, citado pelas agências noticiosas. E nem um sinal de cedência aos apelos da comunidade internacional – das Nações Unidas à União Europeia – para que a expulsão fosse adiada. Apenas do Laos veio a rejeição dos temores expressos de que estas pessoas venham a ser perseguidas, considerando-os “injustificados”.
Designados como os “aliados esquecidos” dos Estados Unidos, os hmongs estiveram ao lado dos norte-americanos durante a guerra do Vietname e muitos fugiram do Laos, quando o movimento comunista Pathet Lao ali chegou ao poder em 1975, denunciando serem alvos de perseguição e maus tratos.
Manifestando-se “perplexo e chocado”, o porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) lembrou que já fora feito um apelo para a anulação das expulsões na passada quinta-feira – quando o Governo tailandês anunciou as intenções de pôr em marcha a expulsão dos hmongs até ao final do ano.
A França juntou-se ontem ao coro de críticas, quando a operação já estava em marcha, instando a Tailândia a “adiar o repatriamento”: “deploramos a decisão”, fez saber Paris, num comunicado em que se compromete a “seguir a situação com extrema atenção”. Da presidência da União Europeia, actualmente assumida pela Suécia, veio uma expressão de “consternação” face ao repatriamento, que avaliou “em violação do direito internacional”.
Irredutível, o primeiro-ministro tailandês, Abhisit Vejjajiva, limitou-se a reiterar que a expulsão decorreu em respeito pelos direitos humanos e garantiu que o Governo do Laos asseverara que os refugiados serão “bem tratados” e que será dada “amnistia aos líderes” da etnia. Foi igualmente prometido que o ACNUR terá acesso a estes refugiados já em território do Laos, o que nunca aconteceu quando viveram – alguns há mais de trinta anos – nos campos tailandeses.
Para Banguecoque, todos aqueles mais de quatro mil refugiados são imigrantes ilegais, apesar das insistências da comunidade internacional de que algumas centenas deles reúnem os requisitos para lhes ser atribuído o estatuto de refugiados políticos, ficando assim protegidos da expulsão.


