Suécia: eleitores felizes, mas prontos a virar à direita

17.09.2006 - 08:26 Por Adelino Gomes, Isabel Meira/PÚBLICO
Hoje pode chegar ao fim um dos mais longos governos sociais-democratas da Europa, se a coligação de direita, Aliança para a Suécia, conquistar a vitória nas eleições legislativas, derrubando a liderança do Governo que na última década tem sido conduzida pelo actual primeiro-ministro, Göran Persson.
O maior diário sueco "Aftonbladet", já apelidou a votação de "super thriller", apontando para a imprevisibilidade do desfecho. Segundo sondagens divulgadas ontem pelas agências, a oposição encabeçada por Fredrik Reinfeldt (que reúne o Partido de Coligação Moderada, o Partido Democrata Cristão, o Partido do Centro e o Partido Popular Liberal) detinha 49,7 por cento das intenções de voto, contra 45,3 atribuídos à coligação de Persson (Partido Trabalhista Social Democrático, Partido de Esquerda e Partido dos Verdes).
O suspense aumenta quando se tenta compreender as razões que poderão estar por detrás dos números e da perspectiva de viragem política que eles acarretam. Um "paradoxo", referem analistas do Der Spiegel, justificando que a estabilidade e a longevidade podem revelar-se o calcanhar de Aquiles do actual Governo. Os sociais-democratas estão conotados como sendo um "partido para os tempos difíceis" e os suecos podem arriscar uma viragem à direita porque "se sentem seguros".
Ao fim de uma década sob o Executivo de Persson, tudo parece caminhar bem: prevê-se uma taxa de crescimento de 5,6 por cento para 2006, os valores do desemprego desceram para 5,6 por cento em Agosto e a taxa de inflação mantém-se abaixo dos dois por cento. Além dos números, a satisfação da população confirma a boa saúde do país nórdico, que ocupa o sétimo lugar do "Mapa da felicidade", um estudo realizado pela Universidade de Leicester. Felizes, os suecos parecem no entanto tentados a votar numa mudança política.
Oposição quer manter modelo económico
Seria uma viragem preconizada pelo líder da oposição, que garante não querer alterar o modelo económico e social instituído pela esquerda no pós-guerra, uma mistura entre Estado providência e "capitalismo enérgico", refere a AFP.
Mas Reinfeldt considera que as estatísticas sobre o desemprego são enganadoras, porque cerca de um milhão de pessoas num total de 4,7 milhões vivem à custa de subsídios públicos, incluindo desempregados, doentes crónicos, salariados em pré-reforma ou em formação profissional. "Göran Persson dirige um partido de "assistidos" e nós somos um partido dos novos trabalhadores", proclamou durante a campanha eleitoral, prometendo diminuir os impostos sobre os salários mais baixos e cortes dos subsídios de desemprego de longa duração.
"Não há vantagem em criar empregos através do agravamento das condições dos doentes e dos desempregados", contrapõe o primeiro-ministro, argumentando que "toda a sua política visa aumentar as diferenças na sociedade". Persson acena o bom estado da economia sueca como principal trunfo para conquistar os votos que lhe dariam a chefia do Governo pela terceira vez consecutiva. Mas após dez anos à frente do Executivo, analistas desconfiam da sua verdadeira motivação para cumprir um novo mandato e acreditam que, caso seja reeleito, abandonará o cargo um ou dois anos depois.


